sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Capítulo 4 - Minha mãe me ensina a tourear

Arrancamos noite adentro por estradas rurais escuras. O vento golpeava o Camaro. A chuva açoitava o para-brisa. Eu não sabia como minha mãe conseguia ver alguma coisa, mas ela mantinha o pé no acelerador.
Toda vez que um relâmpago produzia um clarão, eu olhava para Grover sentado ao meu lado no banco de trás e me perguntava se tinha ficado louco ou se ele estava usando algum tipo de calça felpuda. Mas não, o cheiro era o mesmo que eu lembrava das excursões do jardim de infância para o zoológico infantil – lanolina, como o de lã. O cheiro de um animal molhado de estábulo.
Tudo o que pude dizer foi:
– Então, você e minha mãe... se conhecem?
Os olhos de Grover moveram-se rapidamente para o espelho retrovisor, embora não houvesse carro nenhum atrás de nós.
– Não exatamente – disse ele. – Quer dizer, nunca nos encontramos pessoalmente. Mas ela sabia que eu estava observando você.
– Observando, a mim?
– Estava de olho em você. Cuidando que estivesse bem. Mas eu não estava fingindo ser seu amigo – acrescentou apressadamente. – Eu sou seu amigo.
– Ahn... o que é você, exatamente?
– Isso não importa neste momento.
– Não importa? Da cintura para baixo, o meu melhor amigo é um burro...
Grover soltou um agudo e gutural:
– Bééééé!
Eu já o tinha ouvido fazer aquele som antes, mas sempre achei que era um riso nervoso.
Agora me dava conta de que era mais um berro irritado.
– Bode! – exclamou.
– O quê?
– Eu sou um bode da cintura para baixo.
– Você acaba de dizer que isso não importa.
– Béééé! Alguns sátiros poderiam pisoteá-lo por causa de tamanho insulto!
– Opa. Espere. Sátiros. Você quer dizer como... os mitos do Sr. Brunner?
– Aquelas velhas na banca de frutas eram um mito, Percy? A Sra. Dodds era um mito?
– Então você admite que havia uma Sra. Dodds!
– É claro.
– Então por que...
– Quanto menos você soubesse, menos monstros atrairia – disse Grover, como se aquilo fosse perfeitamente óbvio. – Nós pusemos a Névoa diante dos olhos humanos. Tínhamos esperanças de que você achasse que a Benevolente era uma alucinação. Mas não adiantou. Você começou a perceber quem você é.
– Quem eu... espere um minuto, o que você quer dizer?
O estranho rugido ergueu-se novamente em algum lugar atrás de nós, mais perto do que antes. O que quer que estivesse nos perseguindo ainda estava na nossa cola.
– Percy – disse minha mãe –, há muito a explicar e não temos tempo suficiente.
Precisamos pôr você em segurança.
– Em segurança como? Quem está atrás de mim?
– Ah, nada demais – disse Grover, obviamente ainda ofendido com o comentário sobre o burro. – Apenas o Senhor dos Mortos e alguns dos seus asseclas mais sedentos de sangue.
– Grover!
– Desculpe Sra. Jackson. Poderia dirigir mais depressa, por favor?
Tentei envolver minha mente no que estava acontecendo, mas não consegui. Sabia que aquilo não era um sonho. Eu não tinha imaginação. Jamais poderia sonhar algo tão estranho.
Minha mãe fez uma curva fechada para a esquerda. Desviamos para uma estrada mais estreita, passando com velocidade por casas de fazendas às escuras, colinas cobertas de árvores e placas que diziam “COLHA SEUS PRÓPRIOS MORANGOS” sobre cercas brancas.
– Aonde estamos indo? – perguntei.
– Para o acampamento de verão de que falei. – A voz de minha mãe estava tensa; por mim, ela estava tentando não parecer assustada. – O lugar para onde seu pai queria mandá-lo.
– O lugar para onde você não queria que eu fosse.
– Por favor, querido – implorou ela. – Isso já é bem difícil. Tente entender. Você está em perigo.
– Porque umas velhas senhoras cortaram um fio de lã.
– Aquilo não eram velhas senhoras – disse Grover. – Eram as Parcas. Você sabe o que significa... o fato de elas aparecerem na sua frente? Elas só fazem isso quando você está prestes a... quando alguém está prestes a morrer.
– Epa! Você disse “você”.
– Não, eu não disse. Eu disse, “alguém”.
– Você quis dizer “você”. Ou seja, eu.
– Eu quis dizer você como quem diz “alguém”. Não você, Percy, mas você, qualquer um.
– Meninos! – disse minha mãe.
Ela puxou o volante com força para a direita e eu tive um vislumbre de um vulto do qual ela se desviara – uma forma escura e ondulada, agora perdida na tempestade atrás de nós.
– O que foi aquilo? – perguntei.
– Estamos quase lá – disse minha mãe ignorando a pergunta. – Mais um quilômetro e meio. Por favor. Por favor. Por favor.
Eu não sabia onde era lá, porém me vi inclinando-me para a frente na expectativa, querendo que chegássemos logo.
Do lado de fora, nada além de chuva e escuridão – o tipo de campos vazios que a gente vê quando vai para o extremo de Long Island. Pensei na Sra. Dodds e no momento em que ela se transformou naquela coisa com dentes pontiagudos e asas de couro. Meus membros ficaram amortecidos de choque retardado. Ela realmente não era humana. E pretendia me matar.
Então pensei no Sr. Brunner... e na espada que ele jogara para mim. Antes que eu pudesse perguntar a Grover sobre aquilo, os cabelos de minha nunca se arrepiaram.
Houve um clarão ofuscante, um Bum! De fazer bater o queixo, e o carro explodiu.
Lembro-me de ter me sentido sem peso, como se estivesse sendo esmagado, frito e lavado com uma mangueira, tudo ao mesmo tempo.
Descolei minha testa do encosto do assento do motorista e disse:
– Ai.
– Percy! – gritou minha mãe.
– Estou bem...
Tentei sair do estupor. Eu não estava morto,o carro não explodira de verdade. Tínhamos caído em uma vala. As portas do lado do motorista estavam enfiadas na lama. O teto se abrira como uma casca de ovo e a chuva se derramava para dentro.
Relâmpago. Era a única explicação. Tínhamos voado pelos ares, para fora da estrada.
Ao meu lado no assento traseiro havia uma grande massa informe e imóvel.
– Grover!
Ele estava caído de lado, com sangue escorrendo do canto da boca. Sacudi seu quadril peludo, pensando: Não! Mesmo que você seja metade animal de quintal, ainda é meu melhor amigo, e não quero que morra!
Então ele gemeu:
– Comida – e eu soube que havia esperança.
– Percy – disse minha mãe –, temos de... – Ela titubeou.
Olhei para trás. Num clarão de relâmpago, através do para-brisa traseiro salpicado de lama, vi um vulto andando pesadamente na nossa direção no acostamento da estrada.
Aquela visão fez minha pele formigar. Era a silhueta de um sujeito enorme, como um jogador de futebol americano. Parecia estar segurando uma manta por cima da cabeça. A metade superior dele era volumosa e indistinta. As mãos erguidas davam a impressão de que ele tinha chifres.
Engoli em seco.
– Quem é...
– Percy – disse minha mãe, extremamente séria. – saia do carro.
Ela se jogou contra a porta do lado do motorista. Estava emperrada na lama. Tentei a minha. Emperrada também. Desesperadamente, ergui os olhos para o buraco no teto.
Poderia ser uma saída, mas as bordas estavam chiando e fumegando.
– Saia pelo lado do passageiro! – disse minha mãe. – Percy, você tem de correr. Está vendo aquela árvore grande?
– O quê?
Outro clarão de relâmpago e pelo buraco fumegante no teto eu vi a árvore a que ela se referia: um enorme pinheiro, do tamanho de uma arvore de Natal da Casa Branca, no topo da colina mais próxima.
– Aquele é o limite da propriedade – disse minha mãe. – Passe daquela colina verá uma grande casa de fazenda no fundo do vale. Corra e não olhe para trás. Grite por ajuda. Não pare enquanto não chegar à porta.
– Mamãe, você também vem.
O rosto dela estava pálido, os olhos tristes como quando ela olhava para o oceano.
– Não! – gritei. – Você vem comigo. Ajude-me a carregar o Grover.
– Comida! – gemeu Grover, um pouco mais alto.
O homem com a manta na cabeça continuou indo em nossa direção, grunhindo e bufando. Quando ele chegou mais perto, percebi que não podia estar segurando uma manta acima da cabeça porque as mãos – enormes e carnudas – balançavam ao seu lado.
Não havia manta nenhuma. O que queria dizer que a massa volumosa e indistinta que era grande demais para ser sua cabeça... era a sua cabeça. E as pontas que pareciam chifres...
– Ele não nos quer – disse minha mãe. – Ele quer você. Além disso, não posso ultrapassar o limite da propriedade.
– Mas...
– Não temos tempo, Percy. Vá. Por favor.
Então fiquei zangado – zangado com a minha mãe, com Grover, o bode, com a coisa chifruda que se movia pesadamente em nossa direção, de modo lento e calculado como... como um touro.
Passei por cima de Grover e empurrei a porta, que se abriu para chuva.
– Nós vamos juntos. Venha, mãe.
– Eu já disse que...
– Mamãe! Eu não vou abandonar você. Ajuda aqui com Grover.
Não esperei pela resposta dela. Eu me arrastei para fora do carro, puxando Grover comigo. Ele era surpreendentemente leve, mas eu não poderia tê-lo carregado para muito longe se minha mãe não tivesse ido me ajudar.
Juntos, pusemos os braços de Grover em nossos ombros e começamos a subir a colina aos tropeções, com o capim molhado na altura de cintura.
Ao olhar relance para trás, tive minha primeira visão clara do monstro. Tinha, fácil, mais de dois metros, e os braços e pernas pareciam algo saído da capa de uma revista. Músculos – bíceps e tríceps saltados e mais um monte de outros ceps, todos estufados como bolas de beisebol embaixo de uma pele cheia de veias. Ele usava roupas, a não ser cuecas – branquíssimas, da marca Fruit of the Loom –, o que teria sido engraçado não fosse o fato de a parte superior de seu corpo ser tão assustadora. Pelos marrons e grossos começaram na altura do umbigo e iam ficando mais espessos à medida que chegavam aos ombros.
Seu pescoço era uma massa de músculos e pelos que levavam à enorme cabeça, que tinha um focinho tão comprido quanto meu braço, narinas ranhentas com um reluzente anel de bronze, olhos pretos cruéis e chifres – enormes chifres preto-e-branco com pontas que você não conseguiria fazer nem num apontador elétrico.
Reconheci o monstro muito bem. Tinha sido uma das primeiras historias que o Sr. Brunner nos contara. Mas ele não podia ser real.
Pisquei os olhos para desviar a chuva.
– Aquele é...
– O filho de Pasífae – disse minha mãe. – Gostaria de ter sabido antes o quanto desejaram matar você.
– Mas ele é o Mino...
– Não pronuncie o nome – advertiu ela. – Os nomes têm poder.
O pinheiro ainda estava longe demais – pelo menos cem metros colina acima.
Dei outra olhada para trás.
O homem-touro se curvou por cima de nosso carro, olhando pelas janelas – ou não exatamente olhando. Era mais como farejar, fuçar. Eu não sabia muito bem por que ele se dava a esse trabalho, já que estávamos a apenas quinze metros de distancia.
– Comida? – gemeu Grover.
– Shhh – fiz eu. – Mamãe, o que ele está fazendo? Não está nos vendo?
– Sua visão e sua audição são péssimas – disse ela. – Ele se orienta pelo cheiro. Mas vai perceber onde estamos logo, logo.
Como que na deixa, o homem-touro bramiu de raiva. Ele agarrou o Camaro de Gabe pela capota rasgada, o chassis rangia e gemia. Ergueu o carro acima da cabeça e atirou-o na estrada. Aquilo se chocou contra o asfalto molhado e deslizou em meio a um chuveiro de fagulhas por cerca de quinhentos metros antes de parar. O tanque de gasolina explodiu.
Nem um arranhão, lembrei-me de Gabe dizendo.
Oops.
– Percy – disse minha mãe. – Quando ele nos vir, vai atacar. Espere até o ultimo segundo, depois saia do caminho. Ele não consegue mudar de direção muito bem quando já está atacando. Você entendeu?
– Como você sabe tudo isso?
– Estou preocupada com um ataque há muito tempo. Devia ter esperado por isso. Fui egoísta, mantendo você perto de mim.
– Mantendo-me perto de você? Mas...
Outro bramido de raiva e o homem-touro começou a subir pesadamente a colina.
Tinha nos farejado.
O pinheiro estava a apenas mais alguns metros, mas a colina era cada vez mais íngreme e escorregadia, e Grover ficava mais pesado.
O homem-touro se aproximava. Mas alguns segundos e estaria em cima de nós.
Minha mãe devia estar exausta, mas carregou Grover.
– Vá, Percy! Vá sozinho! Lembre-se do que eu disse.
Eu não queria me separar, mas tive a sensação de que ela estava certa – era nossa única chance. Pulei para esquerda, virei-me e vi a criatura avançando em minha direção. Os olhos pretos brilhavam de ódio. Fedia a carne podre.
Ele inclinou a cabeça e atacou, aqueles chifres afiados como navalhas apontados diretamente para o meu peito.
O medo no meu estômago me deu vontade de disparar, mas isso não daria certo. Eu jamais poderia correr mais que aquela coisa. Então fiquei parado e, no último momento, saltei para o lado.
O homem-touro passou por mim a toda como um trem de carga, depois bramiu de frustração e se virou, mas dessa vez não contra mim, mas contra minha mãe, que estava acomodando Grover sobre a grama.
Tínhamos chegado ao topo da colina. Embaixo, do outro lado, pude ver um vale, bem como minha mãe dissera, e as luzes de uma casa de fazenda tremeluzindo amarelas através da chuva. Mas estava a oitocentos metros de distância. Nunca conseguiríamos chegar lá.
O homem-touro roncou, escavando o chão. Ficou olhando para minha mãe, que recuava lentamente colina abaixo, de volta para estrada, tentando afastar o monstro de Grover.
– Corra, Percy! – disse ela. – Não posso passar daqui. Corra!
Mas fiquei lá parado, paralisado de medo, enquanto o monstro a atacava. Ela tentou sair de lado, como me dissera para fazer, mas o monstro tinha aprendido a lição. Jogou a mão para frente e agarrou-lhe o pescoço quando ela tentou escapar. Ele a ergueu enquanto ela lutava, chutando e dando murros no ar.
– Mamãe!
Então, com um rugido furioso, o monstro fechou os punhos em volta do pescoço da minha mãe e ela se dissolveu diante dos meus olhos, fundindo-se em luz, uma forma dourada tremeluzente, como uma projeção holográfica. Um clarão ofuscante, e ela simplesmente... se foi.
– Não!
A raiva substituiu o medo. Uma nova força ardeu em meus membros – a mesma onda de energia que me veio quando a Sra. Dodds mostrou as garras.
O homem-touro foi na direção de Grover, que estava deitado na grama, indefeso. O monstro se curvou, fungando meu melhor amigo como se estivesse prestes a erguê-lo dali e fazê-lo se dissolver também.
Eu não podia permitir aquilo.
Tirei minha capa de chuva vermelha.
– Ei! – gritei, agitando a capa e correndo para um lado do monstro. – Ei, estúpido! Monte de carne moída!
– Raaaarrrrr ! – O monstro virou-se para mim sacudindo seus punhos carnudos.
Eu tive uma ideia – uma ideia boba, porém melhor do que não pensar em nada. Encostei as costas no grande pinheiro e agitei a capa vermelha na frente do homem-touro, pensando em pular fora do caminho no ultimo momento.
Mas não foi assim que aconteceu.
O homem-touro atacou depressa demais, os braços estendidos para me agarrar qualquer que fosse o lado para onde eu tentasse me esquivar.
O tempo começou a passar mais devagar.
Minhas pernas travaram. Eu não podia pular para o lado, assim saltei direto para cima, usando a cabeça da criatura como trampolim, girei o corpo no ar e caí sobre seu pescoço.
Como eu fiz aquilo? Não tive tempo para descobrir. Um milissegundo depois a cabeça do monstro chocou-se contra a árvore e o impacto quase fez meus dentes saltarem da boca.
O homem-touro cambaleou de um lado para outro tentando se livrar de mim. Segurei com força em seus chifres para não ser arremessado. Os trovões e os relâmpagos ficavam mais fortes. A chuva caía em meus olhos. O cheiro de carne podre queimava minhas narinas.
O monstro se sacudia e corcoveava como um touro de rodeio. Poderia simplesmente ter chegado para trás e me esmagado completamente na árvore, mas eu começava a perceber que aquela coisa só tinha uma direção: para frente.
Enquanto isso, Grover começou a gemer na grama. Quis gritar para ele ficar calado, mas do jeito que estava sendo jogado de um lado para o outro, se abrisse a boca deceparia minha própria língua com uma mordida.
– Comida! – gemeu Grover.
O homem-touro virou-se para ele, escavou o chão novamente e se preparou para atacar.
Pensei em como ele havia espremido a vida para fora de minha mãe, como a fizera desaparecer num clarão de luz, e a raiva me abasteceu como um combustível de alta potência. Agarrei um dos chifres com ambas as mãos e puxei para trás com toda a minha força. O monstro se retesou, soltou um grunhido de surpresa, e então... pléc!
O homem-touro berrou e me atirou pelos ares. Aterrissei de costas na grama. Minha cabeça bateu contra uma pedra. Quando me sentei, minha visão estava embaçada, mas eu tinha um chifre nas mãos, um osso partido do tamanho de uma faca.
O monstro atacou.
Sem pensar, rolei para o lado e me levantei de joelhos. Quando ele passou a toda velocidade, enterrei o chifre quebrado bem na lateral de seu corpo, logo abaixo da caixa torácica peluda.
O homem-touro urrou em agonia. Debateu-se, rasgando o peito com suas garras, e depois começou a se desintegrar – não como minha mãe, em um clarão dourado, mas como areia se esfarelando, carregada pelo vento aos pedaços para longe, do mesmo modo como a Sra. Dodds se desintegrara.
O monstro se fora.
A chuva tinha parado. A tempestade ainda rugia, mas somente a distância. Eu cheirava a gado e meus joelhos tremiam. Minha cabeça parecia que ia se partir ao meio. Estava fraco, assustado e tremia de tristeza. Acabara de ver minha mãe se desvanecer. Queria me deitar e chorar, mas havia Grover, precisando de minha ajuda, portando consegui erguê-lo e descer cambaleando para o vale em direção às luzes da casa. Eu estava chorando, chamando minha mãe, mas me agarrei a Grover – eu não ia deixá-lo partir.
Minha última lembrança é ter desmaiado numa varanda de madeira, olhando para um ventilador de teto que girava acima de mim, mariposas voando em volta de uma luz amarela, e as expressões austeras e familiares de um homem barbudo e uma menina bonita, com cabelos loiros encaracolados como os de uma princesa. Os dois olharam para mim e a menina disse:
– É ele. Tem de ser.
– Silêncio, Annabeth – disse o homem. – Ele ainda está consciente. Traga-o para dentro.

Capítulo 3 - Grover de repente perde as calças

Hora da confissão: descartei Grover assim que chegamos ao terminal rodoviário.
Eu sei, eu sei. Foi rude. Mas Grover estava me deixando fora de mim, me olhando como se eu fosse um homem morto, murmurando: “por que sempre tem de ser na sexta série?”
Sempre que Grover ficava nervoso, sua bexiga entrava em ação, portanto não fiquei surpreso quando, assim que descemos do ônibus, ele me fez prometer que o esperaria e foi direto para o banheiro. Em vez de esperar, peguei minha mala, saí discretamente e tomei o primeiro taxi saindo do Centro.
– Cento e quatro Leste com a Primeira Avenida – disse ao motorista.


Uma palavra sobre a minha mãe, antes que você a conheça.
Seu nome é Sally Jackson e ela é a melhor pessoa do mundo, o que apenas prova minha teoria de que as melhores pessoas são as mais azaradas. Os pais dela morreram em um desastre de avião quando estava com cinco anos, e ela foi criada por um tio que não lhe dava muita bola. Queria ser escritora, assim passou o curso de ensino médio trabalhando e economizando dinheiro para pagar uma faculdade com um bom programa de oficinas literárias. Então o tio teve câncer e ela precisou abandonar a escola no último ano para cuidar dele. Depois que ele morreu, ela ficou sem dinheiro nenhum, sem família e sem diploma.
A única coisa boa que lhe aconteceu foi conhecer meu pai.
Não tenho nenhuma lembrança dele, apenas essa espécie de sensação calorosa, talvez o mais leve resquício de seu sorriso. Minha mãe não gosta de falar sobre ele porque isso a deixa triste. Ela não tem fotografias.
Veja bem, eles não eram casados. Ela me contou que ele era rico e influente, e o relacionamento deles era um segredo. Então um dia ele zarpou pelo Atlântico em alguma jornada e nunca mais voltou.
Perdido no mar, minha mãe me contou. Não morto. Perdido no mar.
Ela vivia de trabalhos esporádicos, estudava à noite para tirar o diploma de ensino médio e me criou sozinha. Nunca se queixava ou ficava zangada. Nem uma só vez. Mas eu sabia que não era uma criança fácil.
Acabou se casando com Gabe Ugliano, que foi simpático nos primeiros trinta segundos em que o conhecemos e depois mostrou quem realmente era, um imbecil de marca maior. Quando eu era pequeno apelidei-o de Gabe Cheiroso. Sinto muito, mas é a verdade. O cara fedia a pizza de alho embolorada enrolada num calção de ginástica.
Em nosso fogo cruzado, tornávamos a vida da minha mãe bem difícil. O modo como Gabe Cheiroso a tratava, o jeito como ele e eu nos relacionávamos... bem, um bom exemplo é minha chegada em casa.
Entrei em nosso pequeno apartamento, esperando que minha mãe já tivesse voltado do trabalho. Em vez disso, Gabe Cheiroso estava na sala de estar, jogando pôquer com seus cupinchas. Na televisão, o canal de esportes estava no volume máximo. Havia batatinhas e latas de cerveja espalhadas pelo tapete.
Mal erguendo os olhos, ele disse com o cigarro na boca:
– Então você está em casa.
– Onde está a minha mãe?
– Trabalhando – disse ele. – Você tem alguma grana?
E foi isso. Nada de Bem-vindo ao lar. Bom ver você. O que fez nos últimos seis meses?
Gabe tinha engordado. Parecia uma morsa sem tromba com roupas de brechó. Tinha uns três fios de cabelo na cabeça, todos penteados por cima da careca, como se isso o deixasse bonito ou coisa assim.
Era gerente do Hipermercado de Eletrônica, no Queens, mas passava a maior parte do tempo em casa. Não sei por que ainda não tinha sido demitido. Ele só fica recebendo o pagamento, gastando o dinheiro em charutos que me dão náuseas e em cervejas, é claro.
Sempre cerveja. Toda vez que eu estava em casa ele esperava que eu lhe fornecesse fundos para jogar. Chamava isso de nosso “Segredo de Homem”. Isto é, se eu contasse para minha mãe, ele me quebrava a cara.
– Não tenho grana nenhuma – falei.
Ele ergue uma sobrancelha oleosa.
Gabe era capaz de farejar dinheiro como um cão de caça, o que era surpreendente, já que seu próprio cheiro deveria encobrir qualquer outro.
– Você pegou um taxi no terminal de ônibus – disse ele. – Provavelmente pagou com uma nota de vinte. Recebeu seis ou sete dólares de troco. Alguém que espera viver embaixo deste teto deveria ser capaz de se sustentar. Estou certo, Eddie?
Eddie, o síndico do prédio, olhou para mim com uma ponta de solidariedade.
– Vamos, Gabe – disse ele. – O garoto acabou de chegar.
– Estou certo? – repetiu Gabe.
Eddie fez uma careta para sua tigela de pretzels. Os outros dois caras soltaram juntos seus gases.
– Tudo bem – disse eu. – Tirei um maço de dólares do bolso e joguei o dinheiro em cima da mesa. – Tomara que você perca.
– Seu boletim chegou, Geninho! – gritou ele às minhas costas. – Eu não ficaria tão metido!
Bati a porta do meu quarto, que na verdade não era meu. Durante os meses de aulas era a “sala de estudos” de Gabe. Ele não “estudava” coisa nenhuma lá, exceto revistas de automóveis, mas adorava socar as minhas coisas no armário, largar as botas enlameadas no peitoril da janela e fazer o possível para deixar o lugar com cheiro de sua colônia detestável, charutos e cerveja choca.
Larguei a mala em cima da cama. Lar doce lar.
O cheiro de Gabe era quase pior que os pesadelos com a sra. Dodds ou o som da tesoura daquela velha enrugada cortando o fio de lã.
Mas assim que pensei naquilo, minhas pernas bambearam. Lembrei-me da expressão de pânico de Grover – como ele me fez prometer que não iria para casa sem ele. Um calafrio repentino me percorreu. Era como se alguém – alguma coisa – estivesse procurando por mim naquele momento, talvez subindo pesadamente a escada, com garras compridas e horrendas crescendo.
Então ouvi a voz da minha mãe.
– Percy?
Ela abriu a porta do quarto e meus medos se foram.
A simples entrada de minha mãe no quarto já consegue me fazer sentir bem. Seus olhos brilham e mudam de cor com luz. O sorriso é quente como uma manta. Ela tem alguns poucos fios grisalhos misturados com os longos cabelos castanhos, mas nunca penso nela como uma pessoa velha. Quando me olha, é como se estivesse vendo todas as coisas boas em mim, nenhuma das ruins. Nunca a ouvi levantar a voz ou dizer uma palavra indelicada para ninguém, nem mesmo para mim ou Gabe.
– Ah, Percy. – Ela me abraçou apertado. – Eu não acredito. Você cresceu desde o Natal!
O uniforme vermelho, branco e azul, da Doce América, tinha cheiro das melhores coisas do mundo: chocolate, alcaçuz e tudo o mais que ela vendia na doceria da Grande Estação Central. Tinha levado para mim um belo saco de “amostras grátis”, como sempre fazia quando eu ia para casa.
Sentamos juntos na beirada da cama. Enquanto eu atacava os doces de mirtilo, ela passava a mão no meu cabelo e queria saber tudo o que eu não havia escrito nas cartas.
Nada mencionou sobre o fato de eu ter sido expulso. Não parecia se importar com isso. Mas eu estava ok? Seu menininho estava bem?
Eu disse a ela que estava me sufocando, pedi que desse um tempo e tal, mas, secretamente, estava feliz demais em vê-la.
Do outro cômodo, Gabe berrou:
– Ei, Sally! Que tal um pouco de pasta de feijão, hein?
Eu rangi os dentes.
Minha mãe é a mulher mais gentil do mundo. Deveria ter se casado com um milionário, não com um imbecil como Gabe.
Por ela, tentei parecer otimista em relação aos meus últimos dias na Academia Yancy.
Disse-lhe que não estava muito chateado com a expulsão. Dessa vez, conseguira durar quase o ano inteiro.
Eu havia feito novos amigos. Tinha me saído muito bem em latim. E, honestamente, as brigas não tinham sido tão ruins com disera o diretor. Eu tinha gostado da Academia Yancy. De verdade. Enfeitei tanto os acontecimentos do ano que quase convenci a mim mesmo. Comecei a ficar com a voz embargada só de pensar em Grover e no Sr. Brunner.
Até Nancy Bobofit de repente não pareceu assim tão má.
Até aquela excursão ao museu...
– O quê? – perguntou minha mãe. Seus olhos puxaram pela minha consciência, tentando arrancar os segredos. – Alguma coisa assustou você?
– Não, mamãe.
Eu me senti mal por mentir, queria contar a ela sobre a Sra. Dodds e as três velhas com o fio de lã, mas achei que aqui ia parecer bobagem.
Ela apertou os lábios. Sabia que eu estava escondendo alguma coisa, mas não quis me pressionar.
– Tenho uma surpresa para você – disse ela. – Nós vamos à praia.
Meus olhos se arregalaram.
– Montauk?
– Três noites... no mesmo chalé.
– Quando?
Ela sorriu.
– Assim que eu me trocar.
Mal pude acreditar. Minha mãe e eu não tínhamos ido a Montauk nos últimos dois verões porque Gabe dissera que não havia dinheiro suficiente.
Gabe apareceu no vão da porta e rosnou.
– Pasta de feijão, Sally. Você não ouviu?
Tive vontade de dar-lhe um soco, mas meus olhos encontraram os de minha mãe e entendi que ela estava me oferecendo um acordo: ser gentil com Gabe só um pouquinho. Só até ela estar pronta para ir para Montauk. Então sairíamos dali.
– Eu já estava a caminho, meu bem – disse ela a Gabe. – Estávamos só conversando sobre a viagem.
Os olhos de Gabe se apertaram.
– A viagem? Você quer dizer que estava falando disso a sério?
– Eu sabia – murmurei. – Ele não vai nos deixar ir.
– É claro que vai – disse minha mãe calmamente. – Seu padrasto só está preocupado com o dinheiro. É tudo. Além disso – acrescentou –, Gabriel não terá de se contentar com pasta de feijão. Vou fazer para ele uma pasta de sete camadas suficiente para todo o fim de semana. Guacamole. Creme azedo. Serviço completo.
Gabe amaciou um pouco.
– Então esse dinheiro para viagem... vai sair do seu orçamento para roupas, certo?
– Sim, meu bem – disse minha mãe.
– E você não vai com meu carro para nenhum lugar, só vai usar na ida e na volta.
– Seremos muito cuidadosos.
Gabe coçou seu queixo duplo.
– Talvez se você andar logo com essa pasta de sete camadas... E talvez se o garoto pedir desculpas por interromper meu jogo de pôquer...
Talvez se eu chutar você no seu ponto sensível, pensei. E fizer você cantar com voz de soprano por uma semana.
Mas os olhos da minha mãe me advertiram para não deixá-lo zangado.
Por que ela aturava aquele cara? Eu quis gritar. Por que ela se importava com o que ele pensava?
– Desculpe – murmurei. – Sinto muito ter interrompido seu importantíssimo jogo de pôquer. Por favor, volte a ele agora mesmo.
Os olhos de Gabe se estreitaram. O cérebro minúsculo provavelmente estava tentando detectar o sarcasmo na minha frase.
– Está bem, seja lá o que for – convenceu-se.
E voltou para o jogo.
– Obrigada, Percy – disse minha mãe. – Depois que chegarmos a Montauk, vamos conversar sobre.. o que quer que você tenha se esquecido de me contar, certo?
Por um momento, pensei ter visto ansiedade nos olhos dela – o mesmo medo que vira em Grover na viagem de ônibus –, como se minha mãe também tivesse sentindo um estranho calafrio no ar.
Mas então o sorriso dela voltou e concluí que devia estar enganado. Ela despenteou meu cabelo e foi fazer a pasta de sete camadas para Gabe.


Uma hora depois estávamos prontos para partir.
Gabe interrompeu o jogo de pôquer por tempo suficiente para me observar arrastando as malas da minha mãe para o carro. Ficou se queixando e se lamentando por ficar sem a comida dela – e mais importante, sem seu Camaro 78 – durante todo o fim de semana.
– Nem um arranhão nesse carro, Geninho – advertiu-me quando eu estava carregando a última mala. – nem um arranhãozinho.
Como se eu fosse dirigir aos doze anos. Mas isso não importa para Gabe. Se alguma gaivota fizesse coco na pintura, ele arranjaria um jeito de me culpar.
Observando-o voltar em seu passo desajeitado para o prédio, fiquei tão zangado que fiz uma coisa que não consigo explicar. Quando Gabe chegou à porta de entrada, fiz um gesto com a mão que tinha visto Grover fazer no ônibus, uma espécie de gesto para afastar o mal, a mão em garra sobre o coração e depois um movimento de empurrar na direção de Gabe. A porta de tela bateu tão forte que o acertou no traseiro e o mandou voando até a escada, como se tivesse sido disparado por um canhão. Talvez tenha sido apenas o vento, ou algum acidente maluco com as dobradiças, mas não fiquei lá tempo suficiente para descobrir.
Entrei no Camaro e disse para minha mãe pisar fundo.


Nosso chalé alugado ficava na margem sul, lá na ponta de Long Island. Era uma pequena cabana de cor clara com cortinas desbotadas, quase enterrada nas dunas. Havia sempre areia nos lençóis e aranhas nos armários, e na maior parte do tempo o mar estava gelado demais para nadar.
Eu adorava o lugar.
Íamos lá desde que eu era bebê. Minha mãe ia ainda havia mais tempo. Ela nunca disse exatamente, mas eu sabia por que a praia era especial. Era o lugar onde conhecera meu pai.
À medida que nos aproximávamos de Montauk, ela parecia ir ficando mais jovem, os anos de preocupação e trabalho desaparecendo do rosto. Os olhos ficavam da cor do mar.
Chegamos lá ao pôr do sol, abrimos todas as janelas do chalé e passamos por nossa rotina de limpeza. Caminhamos pela praia, demos salgadinhos de milho às gaivotas e mascamos jujubas azuis, caramelos azuis e todas as outras amostras grátis que minha mãe levara do trabalho.
Acho que eu deveria explicar a comida azul.
Veja bem, Gabe uma vez disse à minha mãe que isso não existia. Eles tiveram uma discussão, que pareceu uma coisinha de nada na época. Mas, desde então, minha mãe fez tudo o que era possível comer em azul. Ela assava bolos de aniversários azuis. Batia vitaminas com mirtilos azuis. Comprava tortilhas de milho azul e levava para casa balas azuis da loja. Isso – junto com o fato de conservar o nome de solteira, Jackson, em vez de se chamar Sra. Ugliano – era prova de que ela não tinha sido totalmente domada por Gabe. Tinha uma inclinação para rebeldia, como eu.
Quando escureceu, acendemos uma fogueira. Assamos o cachorro-quente e marshmallows. Minha mãe contou histórias sobre quando ela era criança, antes de os pais morrerem no acidente de avião. Contou-me sobre os livros que queria escrever um dia, quando tivesse dinheiro suficiente para largar a doceria.
Finalmente, reuni coragem para perguntar sobre o que sempre me vinha à cabeça quando íamos a Montauk – meu pai. Os olhos dela ficaram cheios d’água. Imaginei que iria me contar as mesmas coisas de sempre, mas nunca me cansava de ouvi-las.
– Ele era gentil, Percy – disse ela. – Alto, bonito e forte. Mas gentil também. Você tem o cabelo dele, você sabe, e os olhos verdes.
Mamãe pegou uma jujuba azul do saco de doces.
– Gostaria que ele pudesse vê-lo, Percy. Ficaria muito orgulhoso.
Eu me perguntei como ela podia dizer aquilo. O que havia de tão bom a meu respeito? Um menino disléxico, hiperativo, com um boletim D+, expulso da escola pela sexta vez em seis anos.
– Que idade eu tinha? – perguntei. – Quer dizer... quando ele se foi?
Ela olhou para as chamas.
– Ele só ficou comigo por um verão, Percy. Bem aqui nesta praia. Neste chalé.
– Mas... ele me conheceu quando eu era bebê?
– Não, meu bem. Ele sabia que eu estava esperando um bebê, mas nunca o viu. Teve de partir antes de você nascer.
Tentei conciliar o fato de que eu parecia me lembrar de... alguma coisa sobre meu pai.
Uma sensação calorosa. Um sorriso.
Sempre presumira que ele havia me visto quando bebê. Minha mãe nunca dissera exatamente isso, mas ainda assim eu achava que tinha acontecido. Saber agora que ele nunca me viu...
Fiquei com raiva do meu pai. Talvez fosse uma bobagem, mas eu me ressenti por ele ter partido naquela viagem oceânica, por não ter tido coragem para se casar com minha mãe. Ela nos deixara e agora estávamos presos ao Gabe Cheiroso.
– Você vai me mandar embora de novo? – perguntei a ela. – para outro internato?
Ela puxou um marshmallow do fogo.
– Eu não sei, meu bem. – Sua voz soou muito séria. – Acho... acho que teremos de fazer alguma coisa.
– Por quê você não me quer me ver por perto? – Eu me arrependi das palavras assim que elas saíram.
Os olhos de minha mãe ficaram marejados. Ela pegou minha mão e apertou com força.
– Ah, Percy, não. Eu... eu preciso, meu bem. Para seu próprio bem. Eu tenho de mandar você para longe.
Suas palavras me lembraram o que o Sr. Brunner tinha dito – que era melhor para mim deixar Yancy.
– Porque eu não sou normal? – disse eu.
– Você diz isso como se fosse uma coisa ruim, Percy. Mas não se dá conta do quanto você é importante. Pensei que Yancy seria bastante longe. Pensei que você finalmente estaria em segurança.
– Em segurança de quê?
Os olhos dela encontraram os meus, e me veio uma enxurrada de lembranças – todas esquisitas, assustadoras que sempre aconteciam, algumas que eu tentara esquecer.
Na terceira série, um homem de capa de chuva preta me seguiu no recreio. Quando os professores ameaçaram chamar a polícia, ele foi embora resmungando, mas ninguém acreditou em mim quando contei que, embaixo do chapéu de aba larga, o homem tinha um olho só, bem no meio da testa.
Antes disso – uma lembrança realmente antiga. Eu estava na pré-escola, e uma professora acidentalmente me pôs para dormir em um berço para dentro do qual uma cobra se arrastara. Minha mãe gritou quando foi me buscar e me encontrou brincando com uma cobra flácida cheia de escamas, que eu de algum modo conseguira estrangular até a morte com as minhas mãos gordinhas de bebê.
Em cada uma das escolas, algo de horripilante acontecera, algo perigoso, e fui forçado a sair. Eu sabia que devia contar à minha mãe sobre as velhas na banca de frutas e a Sra. Dodds no museu de arte, sobre a estranha alucinação em que eu havia transformado a professora de matemática em pó com uma espada. Mas não consegui me forçar a contar. Tinha a sensação esquisita de que a noticia iria acabar com nossa viagem a Montauk, e isso eu não queria.
– Tentei manter você tão perto de mim quanto pude – falou minha mãe. –Eles me disseram que isso era um erro. Mas só havia uma outra opção, Percy... o lugar para onde seu pai queria mandá-lo. E eu simplesmente... simplesmente não poderia aguentar ter de fazer isso.
– Meu pai queria que eu fosse para uma escola especial?
– Não uma escola – disse ela suavemente. – Um acampamento de verão.
Minha cabeça estava girando. Por que meu pai – que nem sequer ficara por perto tempo suficiente para me ver nascer – teria falado com minha mãe sobre um acampamento de verão? E, se isso era tão importante, por que ela nunca mencionara antes?
– Desculpe, Percy – continuou ela ao ver a expressão em meus olhos. – mas não posso falar sobre isso. Eu... eu não podia mandar você para aquele lugar. Significaria dizer adeus a você para sempre.
– Para sempre? Mas se é apenas um acampamento de verão...
Ela se voltou para o fogo, e eu percebi pela sua expressão que, se fizesse mais perguntas, ela começaria a chorar.


Naquela noite eu tive um sonho muito real.
Havia uma tempestade na praia, e dois belos animais, um cavalo branco e uma águia dourada, estavam tentando matar uma ao outro à beira-mar. A águia mergulhou e fez um talho no focinho do cavalo com suas garras enormes. O cavalo empinou e escoiceou as asas da águia. Enquanto eles lutavam, o chão retumbou e uma voz monstruosa riu em algum lugar embaixo da terra, incitando os animais a lutarem arduamente.
Corri até eles, sabendo que tinha de impedir que se matassem, mas eu corria em câmera lenta. Sabia que iria chegar tarde demais. Vi a águia mergulhar, o bico apontado para os grandes olhos do cavalo, e gritei: Não!
Acordei assustado.
Do lado de fora, havia realmente uma tempestade, o tipo de tempestade que racha árvores e derruba casas. Não havia nenhum cavalo nem águia na praia, somente relâmpagos que criavam uma falsa luz do dia e ondas de seis metros golpeando as dunas como artilharia.
Com o trovão seguinte, minha mãe acordou. Ela sentou na cama, os olhos arregalados, e disse:
– Furacão.
Eu sabia que aquilo era loucura. Nunca houve furacões em Long Island tão cedo no verão. Mas o oceano parecia ter esquecido isso. Por cima dos rugidos do vento, ouvi um bramido distante, um som furioso, torturado, que fez meus cabelos se arrepiarem.
Depois um ruído muito mais próximo, como de malhos na areia. Uma voz desesperada – alguém gritando, esmurrando a porta do nosso chalé.
Minha mãe pulou da cama de camisola e abriu a porta de um safanão.
Grover estava lá, emoldurado no vão da porta contra um fundo de chuva torrencial. Mas ele não era... ele não era exatamente o Grover.
– Procurei a noite toda – arquejou ele. – O que você estava pensando?
Minha mãe olhou para mim aterrorizada – não com medo de Grover, mas da razão de sua chegada.
– Percy – disse ela, gritando para se fazer ouvir mais alto que a chuva. – O que aconteceu na escola? O que você não me contou?
Fiquei paralisado olhando para Grover. Não conseguia entender o que estava vendo.
– O Zeu kai alloi theoi! – gritou ele. – Está bem atrás de mim! Você não contou a ela?
Eu estava chocado demais para registrar que ele acabara de praguejar em grego antigo, e eu tinha entendido perfeitamente. Estava chocado demais para me perguntar como Grover chegara ali sozinho no meio da noite. Porque Grover não estava usando calças – e onde deveriam estar as pernas dele... Onde deveriam estar as pernas dele...
Minha mãe olhou para mim com expressão severa e falou em um tom que jamais usara antes:
– Percy. Conte-me agora!
Eu gaguejei algo sobre velhas senhoras na banca de frutas e a Sra. Dodds, e minha mãe ficou olhando para mim, o rosto mortalmente pálido aos clarões dos relâmpagos.
– Vão para o carro. Vocês dois. Vão!
Grover correu para o Camaro – mas ele não estava exatamente correndo. Estava trotando, sacudindo seu traseiro peludo, e de repente sua história sobre um distúrbio muscular nas pernas fez sentido para mim. Entendi como ele podia correr tão depressa e ainda assim mancar quando andava.
Porque onde deveriam estar seus pés não havia pés. Haviam cascos fendidos.