quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

HP3 - Capítulo 2

O grande erro de Tia Guida

Harry desceu para o café na manhã seguinte e já encontrou os três Dursley sentados à mesa. Estavam assistindo a uma televisão novinha em folha, um presente de boas-vindas para as férias de verão em casa de Duda, que andara se queixando, em várias vozes, sobre a grande distância entre a geladeira e a televisão da sala. Duda passara a maior parte do verão na cozinha, seus miúdos olhinhos de porco fixos na telinha e sua papada em cinco camadas balançando enquanto ele comia sem parar.
Harry sentou-se entre Duda e tio Válter, um homem grande e socado, com pescoço de menos e bigodes de mais. Longe de desejarem a Harry um feliz aniversário, os Dursley não deram qualquer sinal de que tinham reparado em sua entrada na cozinha, mas o menino estava mais do que acostumado com isso para se importar. Serviu-se de uma fatia de torrada e em seguida olhou para o repórter na televisão, que já ia adiantado na transmissão de uma notícia sobre um fugitivo da prisão.

“Alertamos os nossos telespectadores de que Black está armado e é extremamente perigoso. Se alguém o avistar deverá ligar para o número do plantão de emergência imediatamente.”

— Nem precisa dizer quem ele é — riu-se tio Válter, espiando o prisioneiro por cima do jornal. — Olhem só o estado dele, a imundície do desleixado! Olhem o cabelo dele!
E lançou um olhar de esguelha, maldoso, para Harry, cujos cabelos despenteados sempre tinham sido uma fonte de grande aborrecimento para o tio. Comparado ao homem da televisão, porém, cujo rosto ossudo era emoldurado por um emaranhado que lhe chegava aos cotovelos, Harry se sentiu, na verdade, muito bem penteado.
O repórter reaparecera.

"O Ministério da Agricultura e da Pesca irá anunciar hoje...”

— Espere aí! — berrou tio Válter, olhando furioso para o repórter. — Você não disse de onde esse maníaco fugiu! De que adiantou o alerta? O louco pode estar passando na minha rua neste exato momento!
Tia Petúnia, que era ossuda e tinha cara de cavalo, virou-se depressa e espiou com atenção pela janela da cozinha. Harry sabia que a tia simplesmente adoraria poder ligar para o telefone do plantão de emergência. Era a mulher mais bisbilhoteira do mundo e passava a maior parte da vida espionando os vizinhos sem graça, que nunca faziam nada errado.
— Quando é que eles vão aprender — exclamou tio Válter, batendo na mesa com o punho grande e arroxeado — que a força é a única solução para gente assim?
— É verdade — concordou tia Petúnia, que ainda procurava ver alguma coisa por entre a trepadeira do vizinho.
Tio Válter terminou de beber a xícara de chá, deu uma olhada no relógio de pulso e acrescentou:
— É melhor eu ir andando, Petúnia. O trem de Guida chega às dez.
Harry, cujos pensamentos andavam no andar de cima com o Estojo para manutenção de vassouras, foi trazido de volta à Terra com um tranco desagradável.
— Tia Guida? — o garoto deixou escapar. — É... Ela não está vindo para cá, está?
Tia Guida era irmã de tio Válter. Embora não fosse um parente consanguíneo de Harry (cuja mãe fora irmã de tia Petúnia), a vida inteira ele tinha sido obrigado a chamá-la de “tia”. Tia Guida morava no campo, em uma casa com um grande jardim, onde ela criava buldogues. Raramente se hospedava na Rua dos Alfeneiros, porque não conseguia suportar a ideia de se separar dos seus preciosos cachorros, mas cada uma de suas visitas permanecia horrivelmente nítida na cabeça de Harry.
Na festa do quinto aniversário de Duda, tia Guida tinha dado umas bengaladas nas canelas de Harry para impedi-lo de vencer o primo em uma brincadeira. Alguns anos mais tarde, ela aparecera no Natal trazendo um robô computadorizado para Duda e uma caixa de biscoitos de cachorro para Harry. Na última visita, um ano antes do garoto entrar para Hogwarts, ele pisara sem querer o rabo do cachorro favorito da tia. Estripador perseguira Harry até o jardim e o acuara em cima de uma árvore, mas tia Guida se recusara a recolher o cachorro até depois da meia-noite. A lembrança desse incidente ainda produzia lágrimas de riso nos olhos de Duda.
— Guida vai passar uma semana aqui — rosnou tio Válter — e enquanto estamos nesse assunto — ele apontou um dedo gordo e ameaçador para Harry — precisamos acertar algumas coisas antes de eu sair para apanhá-la.
Duda fez ar de riso e desviou o olhar da televisão. Assistir a Harry ser maltratado pelo pai era sua diversão favorita.
— Em primeiro lugar — rosnou tio Válter — você vai falar com bons modos quando se dirigir a Guida.
— Tudo bem — disse Harry com amargura — se ela fizer o mesmo quando se dirigir a mim.
— Em segundo lugar — continuou o tio, fingindo não ter ouvido a resposta de Harry — como Guida não sabe nada da sua anormalidade, não quero nenhuma... Nenhuma gracinha enquanto ela estiver aqui. Você vai se comportar, está me entendendo?
— Eu me comporto se ela se comportar — retrucou Harry entredentes.
— E em terceiro lugar — disse tio Válter, seus olhinhos maldosos agora simples fendas na enorme cara púrpura — dissemos a Guida que você frequenta o Centro St. Brutus para Meninos Irrecuperáveis.
— Quê? — berrou Harry.
— E você vai sustentar essa história, moleque, ou vai se dar mal — cuspiu tio Válter.
Harry ficou sentado ali, o rosto branco e furioso, encarando o tio Válter, sem conseguir acreditar no que ouvia. Tia Guida vinha fazer uma visita de uma semana – era o pior presente de aniversário que os Dursley já tinham lhe dado, incluindo nessa conta o par de meias velhas do tio.
— Bom, Petúnia — disse tio Válter, levantando-se com esforço — vou indo para a estação, então. Quer me acompanhar para dar um passeio, Dudoca?
— Não — respondeu o menino, cuja atenção se voltara para a televisão agora que o pai acabara de ameaçar Harry.
— O Dudinha tem que ficar elegante para receber a titia — disse tia Petúnia, alisando os cabelos louros e espessos do filho. — Mamãe comprou para ele uma linda gravata-borboleta.
Tio Válter deu uma palmadinha no ombrão de porco de Duda.
— Vejo vocês daqui a pouco, então — disse ele, e saiu da cozinha.
Harry, que estivera sentado numa espécie de transe de horror, teve uma ideia repentina. Abandonando a torrada, ele se levantou depressa e acompanhou o tio até a saída.
Tio Válter estava vestindo o paletó que usava no carro.
— Eu não vou levar você — rosnou ele ao se virar e ver Harry observando-o.
— Como se eu quisesse ir — disse Harry friamente. — Quero lhe perguntar uma coisa.
O tio mirou-o desconfiado.
— Os alunos do terceiro ano em Hog... Na minha escola às vezes têm permissão para visitar o povoado próximo — disse Harry.
— E daí? — retrucou o tio, tirando as chaves do carro de um gancho próximo à porta.
— Preciso que o senhor assine o formulário de autorização — disse Harry depressa.
— E por que eu iria fazer isso? — falou o tio com desdém.
— Bom — respondeu Harry, escolhendo cuidadosamente as palavras — vai ser duro fingir para tia Guida que eu frequento o Saint não sei das quantas... — E Harry ficou satisfeito de ouvir uma inconfundível nota de pânico em sua voz.
— Centro St. Brutus para Meninos Irrecuperáveis! — berrou.
— Exatamente — disse Harry, encarando com toda a calma o rosto púrpura do tio. — É muita coisa para eu me lembrar. Tenho que parecer convincente, não é mesmo? E se eu, sem querer, deixar escapar alguma coisa?
— Vou fazer picadinho de você, não é mesmo? — rugiu o tio, avançando para o sobrinho com o punho levantado. Mas Harry aguentou firme.
— Fazer picadinho de mim não vai ajudar tia Guida a esquecer o que eu poderia contar a ela — disse em tom de ameaça.
Tio Válter parou, o punho ainda levantado, a cara de uma feia cor marrom-arroxeada.
— Mas se o senhor assinar o meu formulário de autorização — apressou- se Harry a acrescentar — juro que vou me lembrar da escola que o senhor diz que frequento, e vou me comportar como um trou... Como se fosse normal e todo o resto.
Harry percebeu que o tio estava considerando a proposta, mesmo que seus dentes estivessem arreganhados e uma veia latejasse em sua têmpora.
— Certo — disse por fim, bruscamente. — Vou vigiar o seu comportamento muito de perto durante a visita de Guida. Se, quando terminar, você tiver andado na linha e sustentado a história, eu assino a droga do formulário.
E, dando meia-volta, abriu a porta e bateu-a com tanta força que uma das vidraças no alto se soltou.
Harry não voltou à cozinha. Subiu as escadas e foi para o quarto.
Se ia se comportar como um trouxa de verdade, era melhor começar já.
Devagar e com tristeza, reuniu seus presentes e cartões de aniversário e escondeu-os debaixo da tábua solta do soalho com os deveres de casa. Depois, foi até a gaiola de Edwiges. Errol parecia ter-se recuperado; ele e Edwiges estavam dormindo, com a cabeça enfiada embaixo da asa. Harry suspirou e cutucou as corujas; para acordá-las.
— Edwiges — disse deprimido — você vai ter que dar o fora por uma semana. Vá com Errol. Rony cuidará de você. Vou escrever um bilhete para ele explicando. E não me olhe assim — os grandes olhos âmbar de Edwiges se encheram de censura — não é minha culpa. É o único jeito que tenho de conseguir uma autorização para visitar Hogsmeade com Rony e Hermione.
Dez minutos depois, Errol e Edwiges (que levava um bilhete para Rony amarrado na perna) saíram voando pela janela e desapareceram de vista. Harry, agora se sentindo completamente infeliz, guardou a gaiola vazia dentro do armário.
Mas não teve muito tempo para se entristecer. Não demorou quase nada e tia Petúnia já estava gritando lá embaixo para Harry descer e se preparar para dar as boas-vindas à hóspede.
— Faça alguma coisa com o seu cabelo! — disse tia Petúnia bruscamente quando o sobrinho chegou embaixo.
Harry não via sentido em tentar fazer seu cabelo ficar penteado.
Tia Guida adorava criticá-lo, por isso, quanto mais desarrumado, mais satisfeita ela iria ficar.
Demasiado cedo, ouviu-se um ruído de pneu triturando areia quando o carro de tio Válter entrou de marcha ré pelo caminho da garagem, depois, batidas de portas e passos no jardim.
— Atenda a porta! — sibilou tia Petúnia para Harry.
Com uma sensação de grande tristeza e depressão na boca do estômago, Harry abriu a porta.
Na soleira encontrava-se tia Guida. Era muito parecida com o tio Válter; corpulenta, alta, socada, a cara púrpura, tinha até bigode, embora não tão peludo quanto o do irmão. Em uma das mãos ela trazia uma enorme mala, e, aninhado sob a outra, um buldogue velho e mal-humorado.
— Onde está o meu Dudoca? — bradou tia Guida. — Onde está o meu sobrinho fofo?
Duda veio gingando em direção ao hall, os cabelos louros emplastrados na cabeça gorda, uma gravata-borboleta quase invisível sob a papada quíntupla. Tia Guida largou a mala na barriga de Harry, deixando-o sem ar, agarrou Duda num abraço apertado com o braço livre e plantou-lhe uma beijoca na bochecha.
Harry sabia perfeitamente bem que Duda só aguentava os abraços da tia porque era bem pago para isso, e não deu outra, quando os dois se separaram, Duda levava uma nota novinha de vinte libras apertada na mão gorda.
— Petúnia! — exclamou tia Guida, passando por Harry como se ele fosse um cabide de chapéus. As duas se beijaram, ou melhor, tia Guida deu uma queixada na bochecha ossuda de tia Petúnia.
Tio Válter entrou nesse momento, sorrindo jovialmente e fechou a porta.
— Chá, Guida? — ofereceu. — E o que é que o Estripador vai tomar?
— Estripador pode beber um pouco de chá no meu pires — respondeu tia Guida enquanto seguiam todos para a cozinha, deixando Harry sozinho no hall com a mala.
Mas o menino não ia se queixar; qualquer desculpa para ficar longe da tia era bem-vinda, por isso começou a carregar a pesada mala para o quarto de hóspedes, demorando o máximo que pôde.
No momento em que voltou à cozinha, tia Guida já fora servida de chá e bolo de frutas e Estripador lambia alguma coisa, fazendo muito barulho, a um canto.
Harry viu tia Petúnia fazer uma ligeira careta ao ver gotas de chá e baba pontilharem o seu chão limpo. Ela detestava animais.
— Quem ficou cuidando dos outros cachorros, Guida? — perguntou tio Válter.
— Ah, deixei o coronel Fubster tratando deles — ribombou em resposta Guida. — Ele entrou para a reforma agora e é bom ter alguma coisa para fazer. Mas não pude deixar o coitado do Estripador, tão velho. Ele fica doente de tristeza quando viajo.
Estripador recomeçou a rosnar quando Harry se sentou. Isto atraiu a atenção de tia Guida para Harry, pela primeira vez.
— Então! — vociferou ela. — Ainda está por aqui?
— Estou — respondeu o menino.
— Não diga “estou” nesse tom ingrato — rosnou tia Guida. — É uma grande bondade Válter e Petúnia acolherem você. Eu não teria feito o mesmo. Eu o teria mandado direto para um orfanato se alguém largasse você na minha porta.
Harry estava doido para responder que preferia viver em um orfanato do que com os Dursley, mas a lembrança do formulário de Hogsmeade fez com que se calasse.
Ele se esforçou para dar um sorriso constrangido.
— Não me venha com sorrisinhos! — trovejou tia Guida. — Estou vendo que não melhorou nada desde a última vez que o vi. Tive esperanças que a escola lhe desse educação à força, se fosse preciso. — Ela tomou um grande gole de chá, limpou o bigode e continuou: — Aonde mesmo que você o está mandando Válter?
— St. Brutus — respondeu o tio prontamente. — É uma instituição de primeira classe para casos irrecuperáveis.
— Entendo. Eles usam a vara em St. Brutus? — vociferou ela do lado oposto da mesa.
Tio Válter fez um breve aceno de cabeça por trás de tia Guida.
— Usam — respondeu Harry. Depois, sentindo que devia fazer a coisa bem-feita, acrescentou: — o tempo todo.
— Ótimo — aprovou tia Guida. — Eu não aceito essa conversa fiada de não bater em gente que merece. Uma boa surra de vara resolve noventa e nove casos em cem. Você já apanhou muitas vezes?
— Ah, já — respondeu Harry — um monte de vezes.
Tia Guida apertou os olhos.
— Não gosto do seu tom, moleque. Se você consegue falar das surras que leva com esse tom displicente, obviamente não estão lhe batendo com a força que deviam. Petúnia, se eu fosse você escreveria à escola. Deixaria claro que os tios aprovavam o uso de força extrema no caso desse moleque.
Talvez tio Válter estivesse preocupado que Harry pudesse esquecer o acordo que tinham feito; o caso é que ele mudou o assunto bruscamente.
— Ouviu o noticiário hoje de manhã, Guida? E aquele prisioneiro que fugiu, hein?
Enquanto tia Guida começava a se fazer em casa, Harry se surpreendeu pensando quase com saudade na vida na Rua dos Alfeneiros, n.º 4 sem ela.
Tio Válter e tia Petúnia em geral encorajavam Harry a ficar fora do caminho deles, o que o menino fazia com a maior satisfação. Tia Guida, por outro lado, queria Harry debaixo dos seus olhos o tempo todo, para poder fazer, com aquele vozeirão, sugestões para melhorá-lo. Adorava comparar Harry a Duda, e tinha o maior prazer de comprar presentes caros para Duda enquanto olhava feio para Harry, como se o desafiasse a perguntar por que não recebera um presente também. Além disso, ela não parava de soltar piadas de mau gosto sobre as razões de Harry ser uma pessoa tão deficiente.
— Você não deve se culpar pelo que os meninos são hoje, Válter — comentou ela durante o almoço do terceiro dia. — Se existe alguma coisa podre por dentro, não há nada que ninguém possa fazer.
Harry tentou se concentrar na comida, mas suas mãos tremiam e seu rosto começou a arder de raiva. Lembre-se do formulário, disse a si mesmo. Pense em Hogsmeade. Não diga nada. Não se levante...
Tia Guida esticou a mão para a taça de vinho.
— Isso é uma das regras básicas da criação — disse ela. — A gente vê isso o tempo todo com os cachorros. Se tem alguma coisa errada com uma cadela, vai ter alguma coisa errada com o filhote...
Naquele momento, a taça de vinho que tia Guida segurava explodiu em sua mão. Cacos de vidro voaram para todo lado e ela gaguejou e piscou, a caraça vermelha pingando.
— Guida! — guinchou tia Petúnia. — Guida, você está bem?
— Não se preocupe — resmungou tia Guida, enxugando o rosto com o guardanapo. — Devo ter segurado a taça com muita força. Fiz a mesma coisa na casa do coronel Fubster no outro dia. Não precisa se preocupar, Petúnia, tenho a mão pesada...
Mas tia Petúnia e tio Válter olharam desconfiados para Harry. Por isso o menino resolveu que era melhor não comer a sobremesa e se retirar da mesa o mais depressa que pudesse.
No corredor, apoiou-se na parede e respirou profundamente. Fazia muito tempo desde a última vez que se descontrolara e fizera uma coisa explodir. Não podia deixar que isso acontecesse de novo, O formulário de Hogsmeade não era a única coisa em jogo – se ele continuasse a agir assim, ia se encrencar com o Ministério da Magia.
Harry ainda era um bruxo menor de idade, portanto, pela lei dos bruxos, ele era proibido de fazer mágica fora da escola. A ficha dele não era muito limpa. Ainda no verão anterior recebera uma carta oficial em que o avisavam muito claramente que se o Ministério tomasse conhecimento de qualquer magia ocorrida na Rua dos Alfeneiros, ele seria expulso de Hogwarts.
Harry ouviu os Dursley se levantarem da mesa e correu escada acima para sair do caminho.


Harry conseguiu sobreviver os três dias seguintes forçando-se a pensar no manual de Faça a manutenção da sua vassoura sempre que tia Guida implicava com ele. A coisa funcionou muito bem, embora seu olhar parecesse vidrado, porque tia Guida começou a ventilar a opinião de que ele era mentalmente deficiente.
Finalmente, um finalmente muito demorado, chegou a última noite da estada de tia Guida. Tia Petúnia preparou um jantar caprichado e tio Válter abriu várias garrafas de vinho. Eles conseguiram terminar a sopa e o salmão sem mencionar nem uma vez os defeitos de Harry; quando comiam a torta merengue de limão, tio Válter deu um cansaço em todo mundo com uma longa conversa sobre Grunnings, sua empresa de brocas; depois tia Petúnia preparou o café e o marido apanhou uma garrafa de conhaque.
— Posso lhe oferecer essa tentação, Guida?
Tia Guida já bebera muito vinho. Sua cara enorme estava muito vermelha.
— Só um pouquinho, então — disse ela rindo. — Um pouquinho mais... Mais... Aí, perfeito.
Duda estava comendo o quarto pedaço de torta. Tia Petúnia bebericava café com o dedo mindinho esticado. Harry realmente queria desaparecer e ir para o quarto, mas deparou com os olhinhos zangados do tio Válter e viu que teria de aguentar até o fim.
— Aah — exclamou tia Guida, estalando os lábios e pousando o cálice de conhaque. — Um senhor jantar, Petúnia. Normalmente só como uma coisinha rápida à noite, com uma dúzia de cachorros para cuidar... — Ela soltou um gostoso arroto e deu umas palmadinhas na grande barriga coberta de tweed. — Me desculpem. Mas gosto de ver um menino de tamanho saudável — continuou ela, dando uma piscadela para Duda. — Você vai ter tamanho de homem, Dudoca, como seu pai. Sim, senhor, acho que vou querer mais um pouquinho de conhaque, Válter... Agora esse outro aí...
Ela virou a cabeça para indicar Harry que sentiu um aperto no estômago. O manual, pensou depressa.
— Esse aí tem um jeito ruim e mirrado. A gente vê isso nos cachorros. Pedi ao coronel Fubster para afogar um no ano passado. Era um ratinho. Fraco. Subnutrido.
Harry tentou se lembrar da página doze do seu livro Feitiço para reverter feitiços persistentes.
— A coisa toda está ligada ao sangue, como eu ia dizendo ainda outro dia. O sangue ruim acaba aflorando. Mas, não estou dizendo nada contra a sua família, Petúnia — ela deu umas pancadinhas na mão ossuda da cunhada com sua mão que mais parecia uma pá — mas sua irmã não era flor que se cheirasse. Isso acontece nas melhores famílias. Depois, fugiu com aquele imprestável e aí está o resultado bem diante dos olhos da gente.
Harry olhava fixamente para o próprio prato, sentindo uma zoeira engraçada nos ouvidos. Segure sua vassoura pela cauda com firmeza, pensou. Mas não conseguiu se lembrar do que vinha depois. A voz de tia Guida parecia perfurá-lo como se fosse uma das brocas do tio Válter.
— Esse Potter — continuou tia Guida bem alto, agarrando a garrafa e derramando mais conhaque no copo e na toalha da mesa — você nunca me contou o que ele fazia.
Tio Válter e tia Petúnia tinham uma expressão extremamente tensa. Duda chegara a levantar os olhos da torta para olhar os pais, boquiaberto.
— Ele... Não trabalhava — disse tio Válter, sem chegar a olhar de todo para Harry. — Desempregado.
— Era o que eu esperava — disse tia Guida, bebendo um enorme gole de conhaque e limpando o queixo na manga. — Um parasita preguiçoso, imprestável, sem eira nem beira que...
— Não era não — exclamou Harry inesperadamente.
Todos à mesa ficaram muito quietos. Harry tremia da cabeça aos pés. Nunca sentira tanta raiva na vida.
— MAIS CONHAQUE! — bradou tio Válter, que empalidecera sensivelmente. Ele esvaziou a garrafa no cálice de tia Guida. — Você, moleque — rosnou para Harry. — Vá se deitar, ande...
— Não, Válter — soluçou tia Guida, erguendo a mão, os olhinhos injetados e fixos em Harry. — Continue, moleque, continue. Tem orgulho dos seus pais, é? Eles saem por aí e se matam num acidente de carro (imagino que bêbados)...
— Eles não morreram num acidente de carro! — protestou Harry, que percebeu que se levantara.
— Morreram num acidente de carro, sim, seu mentiroso infeliz, e jogaram você nos ombros de parentes decentes e trabalhadores! — gritou tia Guida, inchando de fúria. — Você é um ingrato, insolente e...
Mas repentinamente ela se calou. Por um instante pareceu que tinham-lhe faltado palavras. Parecia estar inchando, engasgada de tanta raiva... Mas não parou de inchar. Sua cara enorme e vermelha começou a crescer, os olhos miúdos saltaram das órbitas, e a boca se esticou tanto que a impedia de falar – no segundo seguinte vários botões simplesmente saltaram do seu paletó de tweed e ricochetearam nas paredes – ela inflou como um balão monstruoso, a barriga transbordou o cós da saia, os dedos engrossaram como salames...
— GUIDA! — berraram tio Válter e tia Petúnia juntos quando o corpo dela começou a se erguer da cadeira em direção ao teto.
Estava completamente redonda agora, como uma enorme boia com olhinhos porcinos, e as mãos e os pés se projetaram estranhamente do corpo que flutuava no ar, dando estalinhos apopléticos. Estripador entrou derrapando na sala, latindo enlouquecido.
— NÃÃÃÃÃÃÃO!
Tio Válter agarrou Guida por um pé e tentou puxá-la para baixo, mas quase foi erguido do chão também. Um segundo depois, Estripador avançou, e de um salto abocanhou a perna do tio Válter.
Harry se precipitou para fora da sala de jantar antes que alguém pudesse impedi-lo, e correu para o armário sob a escada. A porta do armário se abriu magicamente quando ele se aproximou. Em segundos, o garoto tinha arrastado o seu malão para a porta da rua. Subiu aos saltos a escada e se atirou embaixo da cama, levantando a tábua solta do soalho, agarrou a fronha cheia de livros e presentes de aniversário. Arrastou-se para fora, passou a mão na gaiola vazia de Edwiges, correu de volta ao lugar em que deixara o malão, na hora em que tio Válter irrompia da sala de jantar, com a perna da calça em tiras ensanguentadas.
— VOLTE AQUI! — urrou. — VOLTE AQUI E FAÇA-A VOLTAR AO NORMAL!
Mas uma raiva que não media consequências se apoderara de Harry. Ele deu um chute no malão para abri-lo, puxou a varinha e apontou-a para o tio Válter.
— Ela mereceu — disse ofegante. — Ela mereceu o que aconteceu. E o senhor fique longe de mim.
Depois, tateou as costas à procura do trinco da porta.
— Vou-me embora. Para mim já chega.
E no momento seguinte Harry estava na rua escura e silenciosa, puxando o malão pesado, a gaiola de Edwiges debaixo do braço.

HP3 - Capítulo 1

O correio coruja

Harry Potter era um menino bastante fora do comum em muitas coisas. Para começar, ele detestava as férias de verão mais do que qualquer outra época do ano. Depois, ele realmente queria fazer seus deveres de casa, mas era obrigado a fazê-los escondido, na calada da noite. E, além de tudo, também era bruxo.
Era quase meia-noite e Harry estava deitado de bruços na cama, as cobertas puxadas por cima da cabeça como uma barraca, uma lanterna em uma das mãos e um grande livro encadernado em couro (História da magia, de Batilda Bagshot), aberto e apoiado no travesseiro. Harry correu a ponta da caneta de pena de águia pela página, franzindo a testa, à procura de alguma coisa que o ajudasse a escrever sua redação, “A queima de bruxas no século XIV Foi totalmente despropositada – discuta”.
A caneta pousou no alto de um parágrafo que pareceu a Harry promissor. Ele empurrou os óculos redondos para a ponta do nariz, aproximou a lanterna do livro e leu:

Os que não são bruxos (mais comumente conhecidos pelo nome de trouxas) tinham muito medo da magia na época medieval, mas não tinham muita capacidade para reconhecê-la. Nas raras ocasiões em que apanhavam um bruxo ou uma bruxa de verdade, a sentença de queimá-los na fogueira não produzia o menor efeito. O bruxo, ou bruxa, executava um Feitiço para Congelar Chamas e depois fingia gritar de dor, enquanto sentia uma cocegazinha suave e prazerosa. De fato, Wendelin, a Esquisita gostava tanto de ser queimada na fogueira que se deixou apanhar nada menos que quarenta e sete vezes, sob vários disfarces.

Harry prendeu a caneta entre os dentes e passou a mão embaixo do travesseiro à procura do tinteiro e de um rolo de pergaminho.
Devagar e com muito cuidado, retirou a tampa do tinteiro, molhou a pena e começou a escrever, parando de vez em quando para escutar, porque se algum dos Dursley, a caminho do banheiro, ouvisse sua pena arranhando o pergaminho, ele provavelmente ia acabar trancafiado no armário sob a escada pelo resto do verão.
A família Dursley, que morava na Rua dos Alfeneiros, 4, era o motivo pelo qual Harry jamais aproveitava as férias de verão. Tio Válter, tia Petúnia e o filho deles, Duda, eram os únicos parentes vivos de Harry. Eram trouxas e tinham uma atitude muito medieval com relação à magia. Os pais de Harry, já falecidos, que tinham sido bruxos, nunca eram mencionados sob o teto dos Dursley. Durante anos, tia Petúnia e tio Válter tinham alimentado esperanças de que, se oprimissem Harry o máximo possível, seriam capazes de acabar com a magia que houvesse nele. Para sua fúria, tinham fracassado. Agora, viviam aterrorizados que alguém pudesse descobrir que Harry passara a maior parte dos últimos dois anos na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. O máximo que podiam fazer, porém, era trancar os livros de feitiços, a varinha, o caldeirão e a vassoura de Harry no início das férias de verão e proibir que o menino falasse com os vizinhos.
A separação dos seus livros de feitiços tinha sido um verdadeiro problema para Harry, porque os professores em Hogwarts tinham passado muitos deveres para as férias. Uma redação, particularmente espinhosa, sobre poções redutoras fora pedida pelo professor de quem Harry menos gostava, o Prof. Snape, que ficaria encantado de ter uma desculpa para castigá-lo com um mês de detenção.
Por isso Harry tinha aproveitado uma oportunidade que surgira na primeira semana de férias. Quando tio Válter, tia Petúnia e Duda foram ao jardim admirar o novo carro da companhia a serviço do tio Válter (em altas vozes para que toda a rua o visse), Harry desceu silenciosamente as escadas, arrombou a fechadura do armário sob a escada, apanhou alguns livros e os escondeu em seu quarto. Desde que não deixasse manchas de tinta nos lençóis, os Dursley não precisariam saber que ele estava estudando magia à noite.
Harry tomava muito cuidado para evitar problemas com seus tios no momento, pois eles já estavam bastante mal-humorados com o sobrinho, só porque o menino recebera um telefonema de um coleguinha bruxo uma semana depois de entrar em férias.
Rony Weasley, que era um dos melhores amigos de Harry em Hogwarts, descendia de uma família em que todos eram bruxos.
Isto significava que ele sabia um montão de coisas que Harry desconhecia, mas Rony jamais usara um telefone antes. E, por azar, fora o tio Válter que atendera a ligação.
— Válter Dursley.
Harry que, por acaso, se achava na sala àquela hora, gelou ao ouvir a voz do amigo responder.
— ALÔ! ALÔ! ESTÁ ME OUVINDO? QUERIA – FALAR COM – O – HARRY – POTTER!
Rony gritou com tanta força que tio Válter deu um salto e afastou o fone a mais de um palmo da orelha com uma expressão em que se misturavam a fúria e o susto.
— QUEM É QUE ESTÁ FALANDO? — berrou ele em direção ao bocal. — QUEM É VOCÊ?
— RONY WEASLEY! — berrou Rony em resposta, como se ele e tio Válter estivessem falando de extremidades opostas de um campo de futebol. — SOU – UM – AMIGO – DE – HARRY – DA – ESCOLA...
Os olhinhos de tio Válter se viraram para Harry, que estava pregado no chão.
— NÃO TEM NENHUM HARRY POTTER AQUI! — vociferou ele, agora segurando o fone com o braço esticado, como se receasse que o aparelho pudesse explodir. — NÃO SEI DE QUE ESCOLA VOCÊ ESTÁ FALANDO! NUNCA MAIS TORNE A LIGAR PARA CÁ! FIQUE LONGE DA MINHA FAMÍLIA!
E atirou o fone no gancho como se estivesse se livrando de uma aranha venenosa.
A briga que se seguiu foi uma das piores da vida de Harry.
— COMO É QUE VOGS SE ATREVE A DAR ESTE NÚMERO PARA GENTE COMO – GENTE COMO VOCÊ! — berrara tio Válter, salpicando Harry de cuspe.
Rony obviamente percebera que metera Harry em uma encrenca, porque não telefonou mais. A outra grande amiga de Harry em Hogwarts, Hermione Granger, tampouco o procurara. O menino suspeitava que Rony tinha avisado à amiga para não telefonar, o que era uma pena, porque Hermione, a bruxa mais inteligente da turma deles, tinha pais trouxas, sabia usar o telefone  perfeitamente bem e provavelmente teria o bom senso de não dizer que frequentava Hogwarts.
Com isso, Harry não ouvira uma única palavra de nenhum dos seus amigos de bruxaria durante cinco longas semanas, e este verão estava saindo quase tão ruim quanto o anterior. Havia apenas uma coisinha que melhorara – depois de jurar que não iria usar sua coruja para remeter cartas aos amigos, Harry tivera permissão de soltar Edwiges, à noite. Tio Válter concordara com isso diante da barulheira que o bicho aprontava quando ficava preso na gaiola o tempo todo.
Harry terminou de escrever sobre Wendelin, a Esquisita e parou mais uma vez para escutar. O silêncio da casa às escuras só era interrompido pelos roncos sonoros e distantes do seu enorme primo, Duda.
Deve ser muito tarde, pensou Harry. Seus olhos comichavam de cansaço. Talvez terminasse a redação na noite seguinte... Ele repôs a tampa do tinteiro; puxou uma fronha velha debaixo da cama; guardou dentro a lanterna, História da magia, a redação, a caneta e a tinta; Levantou-se da cama e escondeu tudo sob uma tábua solta do soalho debaixo da cama. Então ficou em pé, se espreguiçou e verificou a hora no despertador luminoso sobre a mesa-de-cabeceira.
Era uma hora da manhã. Harry sentiu uma contração engraçada na barriga. Fizera treze anos de idade havia uma hora e não tinha se dado conta disso.
Mas outra coisa fora do comum em Harry é que ele não ligava nem um pouco para os seus aniversários. Nunca recebera um cartão de aniversário na vida. Os Dursley não tinham dado a mínima atenção aos dois últimos e ele não tinha razão alguma para supor que fossem se lembrar deste agora.
Harry atravessou o quarto escuro, passou pela espaçosa gaiola vazia de Edwiges e foi abrir a janela.
Debruçou-se no peitoril, achando gostoso o ar fresco da noite que batia em seu rosto depois de ter passado tanto tempo debaixo das cobertas. Fazia duas noites que Edwiges andava fora. Mas Harry não estava preocupado – a coruja já ficara fora tanto tempo assim antes. Mas o garoto desejou que ela voltasse logo – era a única criatura na casa que não se esquivava quando o via.
Harry, embora continuasse pequeno e magricela para sua idade, crescera alguns centímetros desde o ano anterior. Seus cabelos muito pretos, porém, continuavam como sempre tinham sido – teimosamente despenteados, por mais que ele fizesse. Os olhos por trás das lentes eram verde vivo, e na testa havia, claramente visível através dos cabelos, uma cicatriz fina, em forma de raio.
De todas as coisas fora do comum em Harry, essa cicatriz era a mais extraordinária de todas. Não era, como tinham fingido os Dursley durante dez anos, uma lembrança do acidente de carro que matara seus pais, porque Lilian e Tiago Potter não tinham morrido em um acidente de carro.
Tinham sido assassinados, assassinados pelo bruxo das trevas mais temido do mundo nos últimos cem anos, Lord Voldemort. Harry escapara desse mesmo atentado com uma simples cicatriz na testa, no lugar em que o feitiço do bruxo, em vez de matá-lo, tinha se voltado contra o próprio feiticeiro. Quase morto, Voldemorr fugira...
Mas Harry voltara a defrontar com ele outra vez em Hogwarts. Ao se recordar do último encontro, ali parado à janela escura, Harry teve de admitir que era uma sorte ter chegado ao seu décimo terceiro aniversário vivo. Examinou o céu estrelado à procura de um sinal de Edwiges, voando ao seu encontro talvez com um rato morto pendurado no bico, contando receber elogios. Mas ao olhar distraidamente por cima dos telhados, Harry demorou alguns segundos para perceber o que estava vendo.
Recortado contra a lua dourada, e sempre crescendo, vinha um bicho estranhamente torto voando em sua direção. Harry ficou muito quieto esperando o bicho descer. Por uma fração de segundo ele hesitou, a mão no trinco da janela, pensando se devia fechá-la. Mas, nessa hora, o bicho esquisito sobrevoou um lampião da rua dos Alfeneiros e Harry, identificando o que era, saltou para o lado.
Pela janela entraram três corujas, duas delas segurando uma terceira que parecia desmaiada. Pousaram com um ruído fofo na cama do menino e a coruja do meio, que era grande e cinzenta, tombou para o lado, imóvel. Trazia um grande pacote amarrado às pernas.
Harry reconheceu a coruja desmaiada na mesma hora – seu nome era Errol e pertencia à família Weasley. O menino correu para a cama, desamarrou os barbantes que envolviam as pernas de Errol, soltou o pacote e, em seguida, levou a coruja para a gaiola de Edwiges. Errol abriu um olho lacrimejante, deu um pio fraquinho de agradecimento e desatou a beber água em grandes sorvos.
Harry se virou para as corujas restantes. Uma delas, a fêmea grande, branca como a neve, era a sua Edwiges. Ela também trazia um pacote e parecia muito satisfeita consigo mesma. Deu uma bicadinha carinhosa em Harry quando ele soltou sua carga, depois saiu voando pelo quarto para se juntar a Errol. Harry não reconheceu a terceira coruja, um belo espécime pardo, mas soube imediatamente de onde viera, porque além de trazer o terceiro pacote, ela trazia uma carta com o escudo de Hogwarts. Quando Harry acabou de aliviá-la de sua carga, ela sacudiu as penas, cheia de si, abriu as asas e saiu voando pelo céu noturno.
O menino sentou-se na cama e apanhou o pacote de Errol, rasgou o papel pardo e encontrou um presente embrulhado em ouro, o primeiro cartão de aniversário de sua vida. Com os dedos trêmulos, ele abriu o envelope. Caíram dois papéis – uma carta e um recorte de jornal.
O recorte fora visivelmente tirado do jornal dos bruxos, o Profeta Diário, porque as pessoas nas fotos em preto e branco estavam se mexendo. Harry apanhou o recorte, alisou-o e leu.

FUNCIONÁRIO DO MINISTÉRIO DA MAGIA GANHA GRANDE PRÉMIO
Arthur Weasley, chefe da Seção de Controle do Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas no Ministério da Magia, ganhou o Grande Prêmio Anual da Loteria do Profeta Diário.
A Sra. Weasley, encantada, declarou ao Profeta Diário: “Vamos gastar o ouro em uma viagem de férias ao Egito, onde nosso filho mais velho, Gui, trabalha para o Banco Gringotes como desfazedor de feitiços.”
A família Weasley vai passar um mês no Egito, de onde voltará no início do ano letivo em Hogwarts, escola que cinco dos seus filhos ainda frequentam.

Harry examinou a foto em movimento, e um sorriso espalhou-se em seu rosto ao ver os nove Weasley acenando freneticamente para ele, diante de uma enorme pirâmide. A Sra. Weasley, pequena e gorducha, o Sr. Weasley, alto e um pouco careca, os seis filhos e filha, todos (embora a foto em preto e branco não mostrasse) com flamejantes cabelos vermelhos. Bem no meio da foto se achava Rony, alto e desengonçado com o seu rato de estimação, Perebas, no ombro e o braço passado pelas costas da irmã, Gina.
Harry não conseguia pensar em ninguém que merecesse mais ganhar um monte de ouro do que os Weasley, que eram gente muito fina e extremamente pobre. Ele apanhou a carta de Rony e a desdobrou.

Caro Harry,
Feliz aniversário!
Olhe, estou muito arrependido daquele telefonema. Espero que os trouxas não tenham engrossado com você. Perguntei ao papai e ele acha que eu não devia ter gritado.
O Egito é incrível. Gui nos levou para ver os túmulos e você não ia acreditar nos feitiços que os velhos bruxos egípcios lançavam neles. Mamãe não quis deixar a Gina ver o último. Só continha esqueletos mutantes de trouxas que violaram o túmulo e acabaram com duas cabeças e outras esquisitices. Nem consegui acreditar quando o papai ganhou a Loteria do Profeta Diário. Setecentos galeões! A maior parte foi gasta nesta viagem, mas eles vão me comprar uma varinha nova para o próximo ano letivo.

Harry lembrava-se bem demais do dia em que a velha varinha de Rony se partira. Acontecera quando o carro em que os dois voaram para Hogwarts batera de encontro a uma árvore nos jardins da escola.

Estaremos de volta uma semana antes do ano letivo começar e vamos a Londres comprar minha varinha e os livros da escola. Alguma chance de nos encontrarmos lá? Não deixe os trouxas arrasarem você! Faça uma força para ir a Londres,
Rony
PS.: Percy agora é monitor-chefe. Recebeu a carta de nomeação na semana passada.

Harry tornou a admirar a foto. Percy, que estava no sétimo e último ano em Hogwarts, parecia muito cheio de si. Prendera o distintivo de monitor-chefe no fez que usava num ângulo elegante sobre os cabelos bem penteados, seus óculos de aros de tartaruga faiscavam ao sol do Egito.
Harry voltou então sua atenção para o presente e o desembrulhou. Dentro havia um objeto que parecia um pequenino pião de vidro. Debaixo, mais um bilhete de Rony.

Harry–
Isto é um “bisbilhoscópio” de bolso. Dizem que quando tem alguma coisa suspeita por perto, ele acende e gira.
Gui falou que é porcaria que vendem a bruxos turistas e que não é confiável porque ontem, durante o jantar, ficou acendendo o tempo todo. Mas ele não percebeu que Fred e Jorge tinham posto besouros na sopa dele.
Tchau
 – Rony

Harry pôs o bisbilhoscópio em cima da mesa-de-cabeceira, onde o pião ficou parado, equilibrado sobre a ponta, refletindo os ponteiros luminosos do despertador. O menino admirou-o feliz por alguns segundos, então apanhou o pacote que Edwiges lhe trouxera.
Dentro deste também havia um presente embrulhado, um cartão e uma carta, desta vez de Hermione.

Caro Harry,
Rony me escreveu contando o telefonema que deu para o seu tio Válter. Espero que você esteja bem.
Estou de férias na França neste momento e não sabia como ia mandar o meu presente para você – e se eles abrissem o pacote na alfândega? – mas então a Edwiges apareceu! Acho que ela queria garantir que você recebesse alguma coisa no seu aniversário, para variar. Comprei o seu presente pelo reembolso-coruja; vi um anúncio no Profeta Diário (mandei entregar o jornal no meu endereço de férias; é tão bom continuar em dia com o que está acontecendo no mundo dos bruxos). Você viu a foto de Rony com a família que saiu no jornal na semana passada? Aposto que ele está aprendendo um monte de coisas. Estou com inveja – os bruxos do Egito antigo são fascinantes.
Aqui também tem histórias de bruxaria locais interessantes. Reescrevi todo o meu trabalho de História da Magia para incluir algumas coisas que descobri. Espero que não fique grande demais – são dois rolos de pergaminho a mais do que o Prof. Binns pediu. Rony diz que vai a Londres na última semana de férias. Você também vai poder ir? Será que sua tia e seu tio vão deixar?
Espero realmente que possa. Se não, a gente se vê no Expresso de Hogwarts no dia 1º de setembro!
Afetuosamente,
Hermione
PS.: Rony contou que Percy virou monitor-chefe. Aposto como ele está realmente satisfeito. Quem não parece ter gostado é o Rony.

Harry deu risadas enquanto punha a carta de Hermione de lado e apanhava o presente. Era muito pesado. Conhecendo a amiga, ele teve certeza de que seria um livrão cheio de feitiços complicados – mas não era. Seu coração deu um enorme salto quando ele rasgou o papel de embrulho e viu um belo estojo de couro preto, com dizeres em letras prateadas: Estojo para manutenção de vassouras.
— Uau, Hermione! — exclamou Harry baixinho, abrindo o estojo para ver dentro.
Havia um frasco grande de líquido para polir cabos, uma tesoura prateada e reluzente para aparar cerdas, uma pequena bússola para prender na vassoura em viagens longas e um manual Faça a manutenção da sua vassoura. À exceção dos amigos, o que Harry mais sentia falta de Hogwarts era o Quadribol, o esporte mais popular do mundo mágico – extremamente arriscado, muito excitante, que se jogava montado em uma vassoura. Harry, por acaso, era um ótimo jogador de Quadribol: fora o menino mais novo do século a ser escolhido para um time da casa em Hogwarts. Uma das coisas que Harry mais prezava na vida era sua vassoura de corrida, uma Nimbus 2000.
Harry pôs o estojo de couro de lado e apanhou o último embrulho. Reconheceu os garranchos no papel pardo do embrulho na mesma hora: eram de Hagrid, o guarda-caça de Hogwarts. Ele rasgou o papel de embrulho externo e viu um pedacinho de alguma coisa em couro verde, mas antes que conseguisse desfazê-lo direito, o embrulho estremeceu de um modo estranho e o que havia dentro se fechou com um estalo – como se a coisa tivesse mandíbulas.
Harry congelou. Sabia que Hagrid jamais lhe mandaria uma coisa perigosa de propósito, mas, por outro lado, seu amigo não tinha a visão de uma pessoa normal sobre o que era perigoso. Todos sabiam que Hagrid já fizera amizade com aranhas gigantescas, mas nocivas, com cães de três cabeças dados por gente que ele encontrara em bares, e contrabandeara ovos de dragão, um bicho ilegal, para dentro da cabana em que morava.
Harry cutucou o embrulho, nervoso. A coisa tornou a se fechar com ruído, O garoto apanhou o abajur na mesa-de-cabeceira, agarrou-o com firmeza com uma das mãos e ergueu-o acima da própria cabeça, pronto para desferir uma pancada. Então agarrou o resto do papel de embrulho com a outra mão e puxou. E a coisa caiu – um livro. Harry só teve tempo de reparar na bela capa, adornada com um título dourado, O livro monstruoso dos monstros, antes do livro virar de lombada e começar a correr pela cama como um caranguejo esquisito.
— Ah-ah — gemeu Harry.
O livro caiu da cama com um barulho metálico e arrastou-se rápido pelo quarto. O menino o seguiu furtivamente. O livro foi se esconder no espaço escuro embaixo da escrivaninha. Rezando para os Dursley não terem acordado, Harry ficou de quatro e tentou apanhá-lo.
— Ai!
O livro se fechou sobre sua mão e se afastou do menino se sacudindo e andando adernado sobre as capas.
Harry saiu correndo, ainda agachado, e se atirou para a frente, conseguindo achatar o livro. Tio Válter soltou um grunhido sonolento e alto no quarto ao lado.
Edwiges e Errol observaram com interesse quando Harry abraçou com força o livro que se debatia, correu até a cômoda e pegou um cinto, com que o amarrou firmemente. O livro monstruoso estremeceu de raiva, mas não conseguiu mais se agitar e morder, então Harry atirou-o na cama e apanhou o cartão de Hagrid.

Caro Harry,
Feliz aniversário
Achei que isto pudesse lhe ser útil no ano que vem. Não vou dizer mais nada aqui. Conto quando a gente se encontrar.
Espero que os trouxas estejam tratando você bem.
Tudo de bom,
Hagrid

Pareceu a Harry um mau agouro que Hagrid pudesse achar que um livro que morde tivesse utilidade futura, mas pôs o cartão do amigo ao lado do de Rony e Hermione, sorrindo mais satisfeito do que nunca. Agora só sobrava a carta de Hogwarts. Reparando que era bem mais grossa do que de costume, Harry abriu o envelope, puxou a primeira página do pergaminho de dentro e leu:

Prezado Sr. Potter,
Queira registrar que o novo ano letivo começará em 1º de setembro. O Expresso de Hogwarts partirá da estação de King’s Cross, plataforma nove e meia, às onze horas.
Os alunos de terceiro ano têm permissão para visitar a aldeia de Hogsmeade em determinados fins de semana. Assim, queira entregar a autorização anexa ao seu pai ou guardião para que a assine.
Estamos anexando, nesta oportunidade, a lista de livros para o próximo ano.
Atenciosamente,
Profª. M. McGonagall
Vice-Diretora

Harry tirou do envelope o formulário de autorização para ir a Hogsmeade e leu-o, mas já não sorria. Seria maravilhoso visitar Hogsmeade nos fins de semana; ele sabia que era um povoado só de bruxos, em que nunca estivera. Mas como é que ia convencer o tio Válter ou a tia Petúnia a assinar o formulário?
Ele olhou para o despertador. Eram agora duas horas da manhã. Decidindo que se preocuparia com o formulário de Hogsmeade quando acordasse, Harry voltou para a cama e se esticou para riscar mais um dia no calendário que fizera para contar o tempo que faltava para regressar a Hogwarts.
Tirou então os óculos e se deitou, de olhos abertos, de frente para os três cartões de aniversário.
Mesmo sendo muito fora do comum, naquele momento Harry Potter se sentiu como todo mundo: feliz, pela primeira vez na vida, porque era o dia do seu aniversário.

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban


Harry Potter é um menino bastante fora do comum. Está ansioso pelo término das férias de verão, se empenha em realizar todos os deveres de casa, e, além de tudo, ele é um bruxo.
Ao regressar para a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, a atmosfera é tensa. Sirius Black, por muitos considerado um servo de Lord Voldemort, esteve preso durante doze longos anos na temível fortaleza de Azkaban, condenado pela morte de treze pessoas com um único feitiço, e agora está foragido. Uma pista indica o lugar para onde ele se dirigiu – os guardas de Azkaban o ouviram murmurar enquanto dormia: “Ele está em Hogwarts… ele está em Hogwarts.”
Harry Potter não está seguro nem mesmo entre as paredes de sua escola de magia, rodeado de amigos. Porque, ainda por cima, pode haver um traidor no meio deles.


* Para as próximas postagens, utilizarei HP3