sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O Herói Perdido - Piper

Capítulo LI - Piper

— JASON!
Piper ficou chamando seu nome enquanto o segurava, embora estivesse quase perdendo a esperança. Ele ficara inconsciente por dois minutos agora. Seu corpo estava fumegando, seus olhos se reviraram. Ela não podia dizer se ele estava ao menos respirando.
— Não adianta, criança — Hera estava sobre eles com sua túnica simples e xale preto.
Piper não tinha visto a transformação nuclear da deusa. Felizmente tinha fechado seus olhos, mas podia ver os efeitos. Todo o vestígio do inverno havia ido embora do vale. Não havia sinais de batalha, também. Os monstros haviam sido vaporizados. As ruínas foram restauradas à forma que tinham antes  ainda em ruínas, mas sem evidências de que havia sido invadida por um bando de lobos, espíritos da tempestade e ogros de seis braços.
Todas as Caçadoras haviam ressuscitado. A maioria ficou a uma distância respeitosa do pátio, mas Thalia se ajoelhou ao lado de Piper, com a mão na testa de Jason.
Thalia olhou para a deusa.
— Isso é sua culpa. Faça alguma coisa!
— Não se dirija a mim desse modo, garota. Eu sou a rainha...
— Cure-o!
Os olhos de Hera cintilaram com o poder.
— Eu o adverti. Jamais machucaria intencionalmente o garoto. Era para ele ser o meu campeão. Eu disse para fecharem os olhos antes de revelar minha verdadeira forma.
— Hã... — Leo franziu o cenho. — A verdadeira forma é ruim, certo? Então por que você fez isso?
— Eu liberei meu poder para ajudar vocês, tolo! — Hera gritou. — Virei energia pura para poder desintegrar os monstros, restaurar esse lugar e até mesmo salvar essas miseráveis Caçadoras do gelo.
— Mas mortais não podem olhar para você nessa forma! — Thalia gritou. — Você o matou!
Leo balançou a cabeça, arrasado.
— Era o que dizia a profecia. E liberar a morte pela raiva de Hera. Vamos lá, senhora. Você é uma deusa. Faça alguma mágica vudu nele! Traga Jason de volta.
Piper ouviu metade da conversa, mas estava concentrada principalmente no rosto de Jason.
— Ele está respirando! — ela anunciou.
— Impossível — Hera disse. — Eu gostaria que fosse verdade, criança, mas nenhum mortal jamais...
— Jason — Piper chamou, colocando toda a sua força de vontade no nome dele. Ela não poderia perdê-lo. — Me escute. Você pode fazer isso. Volte. Você vai ficar bem.
Nada aconteceu. Ela havia imaginado a respiração dele?
— Cura não é um poder de Afrodite — Hera disse lamentavelmente. — Nem mesmo eu posso consertar isso, garota. Seu espírito mortal...
— Jason — Piper chamou novamente, e ela imaginou sua voz ressoando através da terra, por todo o caminho do Mundo Inferior. — Acorde.
Ele engasgou e seus olhos se abriram. Por um momento estavam cheios de luz  um ouro puro brilhante. Então a luz se apagou e seus olhos estavam normais novamente.
— O que... o que aconteceu?
— Impossível! — Hera disse.
Piper o envolveu em um abraço até que ele gemeu:
— Você está me esmagando.
— Desculpe — ela disse, tão aliviada, rindo enquanto enxugava uma lágrima de seu olho.
Thalia agarrou a mão de seu irmão.
— Como você se sente?
— Quente — ele murmurou. — Minha boca está seca. E eu vi algo... realmente horrível.
— Aquilo era Hera — Thalia resmungou. — Vossa Majestade, o Canhão Solto.
— É isso aí, Thalia Grace — disse a deusa. — Eu vou te transformar em um tamanduá, por que não me ajuda a...
— Parem com isso, vocês duas — Piper disse.
Surpreendentemente, ambas se calaram. Ela ajudou Jason a ficar de pé e deu a ele o último néctar de seus suprimentos.
— Agora... — Piper encarou Thalia e Hera. — Hera... Vossa Majestade... nós não conseguiríamos resgatar você sem as Caçadoras. E Thalia, você nunca teria visto Jason de novo... e eu nunca o teria conhecido... se não fosse por Hera. Vocês duas façam as pazes, porque  temos problemas maiores.
As duas olharam para ela e por três longos segundos, Piper não tinha certeza de quem iria matá-la primeiro.
Finalmente Thalia resmungou.
— Você tem espírito, Piper — ela pegou um cartão prateado de seu casaco e o colocou dentro da jaqueta de snowboard de Piper. — Caso um dia queira ser uma Caçadora, me ligue. Você seria bem útil.
Hera cruzou seus bracos.
— Felizmente para essa Caçadora, você tem um bom argumento, filha de Afrodite. — Ela avaliou Piper, como se estivesse a vendo claramente com o tempo. — Você se perguntou, Piper, por que eu te escolhi para essa busca, por que não revelei seu segredo no início, mesmo quando eu sabia que Encélado estava te usando. Devo admitir, até esse momento eu não tinha certeza. Algo me dizia que você seria vital para a missão. Agora vejo que estava certa. Você é ainda mais forte do que pensei. E estava correta sobre os perigos que virão. Temos que trabalhar juntos.
Piper sentiu seu rosto esquentar. Ela não tinha certeza de como responder ao elogio de Hera, mas Leo entrou em cena.
— Sim — ele disse — não posso supor que esse cara Porfírion simplesmente se dissolveu e morreu, né?
— Não — Hera concordou. — Ao me salvar e salvar esse lugar, vocês impediram Gaia de acordar. Nos arranjaram algum tempo. Mas Porfírion se ergueu. Ele apenas sabia que não deveria ficar aqui, especialmente porque ainda não recuperou o seu poder por completo. Gigantes só podem ser mortos em uma combinação de deus e semideus, trabalhando juntos. Uma vez que me libertaram...
— Ele fugiu — Jason disse. — Mas para onde?
Hera não respondeu, mas uma sensação de pavor tomou conta de Piper. Ela lembrou o que Porfírion havia dito sobre matar os olimpianos pelas suas raízes. Grécia.
Ela olhou a expressão severa de Thalia, e adivinhou que a Caçadora chegou à mesma conclusão.
— Eu preciso encontrar Annabeth — Thalia disse. — Ela deve saber o que aconteceu aqui.
— Thalia... — Jason segurou sua mão. — Nós nunca conversamos sobre esse lugar ou...
— Eu sei — sua expressão suavizou. — Eu te perdi aqui uma vez. E não vou te deixar novamente. Mas nós nos veremos em breve. Eu te encontro quando voltar ao Acampamento Meio-Sangue. — Ela olhou para Hera. — Você vai levá-los até lá em segurança? É o mínimo que pode fazer.
— Não é a sua função me dizer...
— Rainha Hera — Piper interferiu.
A deusa suspirou.
— Muito bem. Sim. Mas não você, Caçadora!
Thalia deu a Jason um abraço e disse adeus. Quando as Caçadoras foram embora, o pátio parecia estranhamente quieto. A piscina vazia não mostrava nenhum sinal dos tentáculos de terra que trouxeram de volta o rei gigante ou Hera presa. O céu noturno estava claro e estrelado. O vento farfalhava nos bosques. Piper pensou sobre aquela noite em Oklahoma quando ela e seu pai haviam dormido em frente ao jardim do vovô Tom. Pensou na noite do teto do dormitório da Escola da Vida Selvagem, quando Jason a tinha beijado... na sua memória alterada pela Névoa, de qualquer maneira.
— Jason, o que aconteceu com você aqui? — ela perguntou. — Digo... sei que sua mãe te abandonou aqui. Mas você disse que esse é um local sagrado para semideuses. Por quê? E que aconteceu depois de você estar nesse lugar?
Jason balançou sua cabeça inquieto.
— Isso é difícil de entender. Os lobos...
— Você ganhou um destino — Hera disse. — Entrou para o meu serviço.
Jason franziu as sobrancelhas.
— Porque você forçou minha mãe a isso. Você não poderia suportar que Zeus tivesse dois filhos com minha mãe. Saber que ele teve uma queda por ela duas vezes. Eu fui o preço que você pediu deixar o resto da minha família em paz.
— Foi a escolha certa pra você também, Jason — Hera insistiu. — A segunda vez que sua mãe conseguiu o afeto de Zeus, foi porque ela o imaginou com aspectos diferentes... os aspectos de Júpiter  Nunca antes isso havia acontecido... duas crianças, uma grega e outra romana, nascidas na mesma família. Você teve que ser separado de Thalia. Esse é o lugar em que todos os semideuses do seu tipo começam sua jornada.
— Do tipo dele? — Piper perguntou.
— Ela quer dizer romano — Jason disse. — Os semideuses são deixados aqui. Nós conhecemos a deusa-loba, Lupa, a mesma loba que criou Rômulo e Remo.
Hera assentiu.
— E se você for forte o suficiente, você sobrevive.
— Mas... — Leo parecia perturbado. — O que aconteceria depois disso? Quer dizer, Jason nunca foi preparado no acampamento.
— Não no Acampamento Meio-Sangue — Hera concordou.
Piper sentiu como se o céu estivesse espiralando acima dela, fazendo-a estontear.
— Você foi para outro lugar. Onde ficou todos esses anos. Em algum outro lugar para semideuses, mas onde?
Jason se voltou para a deusa.
— As memórias estão voltando, mas não o local. Você não vai me dizer, não é?
— Não — Hera confirmou. — Isso faz parte de seu destino, Jason. Você precisa encontrar sozinho. Mas quando conseguir... vai unir dois grandes poderes. Vai nos ajudar novamente com os gigantes, e o mais importante... novamente com a própria Gaia.
— Você precisa de nós para te ajudar — Jason disse — mas está escondendo informações.
— Dar respostas a você as tornaria inválidas. O destino funciona assim. Você precisa trilhar seu próprio destino para que ele signifique algo. E vocês três já me surpreenderam. Eu não podia imaginar que fosse possível... — a deusa balançou sua cabeça. — Chega de falar, vocês tiveram um bom desempenho, semideuses. Mas esse é só o começo. Agora precisam voltar ao Acampamento Meio-Sangue, onde irão começar a planejar a próxima fase.
— Sobre a qual você não contará nada — Jason resmungou. — E suponho que você destruiu o meu cavalo espírito da tempestade legal, então teremos que voltar pra casa caminhando?
Hera deixou de lado a pergunta.
— Espíritos da tempestade são criaturas do caos. Eu não destruí aquele, embora não tenha nenhuma ideia de onde ele foi ou se irá vê-lo novamente. Mas existe um jeito mais fácil de levá-los para casa. Como vocês fizeram um bom serviço para mim, posso ajudá-los... pelo menos dessa vez. Adeus, semideuses, por ora.
O mundo virou de cabeça para baixo, e Piper quase desmaiou.


Quando voltou a si, ela estava de volta ao acampamento, no pavilhão do refeitório  no meio do jantar. Eles estavam em cima da mesa de Afrodite, e o pé de Piper estava na pizza de Drew. Dezesseis campistas se levantaram imediatamente, boquiabertos de espanto.
O que quer que Hera fizera para atirá-los pelo país, não fizera bem para o estômago de Piper. Ela mal conseguia controlar sua náusea. Leo não teve tanta sorte. Ele pulou fora da mesa, correu para o braseiro de bronze mais próximo e vomitou, o que provavelmente não foi uma grande oferenda para os deuses.
— Jason? — Quíron trotou para frente. Sem dúvida o velho centauro de milhares de anos tinha visto coisas muito estranhas, mas mesmo ele parecia totalmente espantado. — O que... Como...?
Os campistas de Afrodite olharam para Piper com as bocas abertas. Piper imaginou que ela estava horrível.
— Oi — ela disse, o mais casualmente quanto podia. — Estamos de volta.

O Herói Perdido - Jason

Capítulo L - Jason

UM LOBO SE LANÇOU CONTRA JASON. Ele recuou e acertou a besta no focinho com um estalo satisfatório. Talvez apenas prata pudesse matá-lo, mas um bom e velho tronco poderia causar uma grande dor de cabeça.
Ele se virou na direção do som de cascos e viu um espírito da tempestade na forma de cavalo vindo em sua direção. Jason concentrou-se e convocou os ventos. Pouco antes de o espírito atropelá-lo, Jason lançou-se no ar, agarrou o pescoço esfumaçado do cavalo e montou em suas costas.
O espírito da tempestade tentou derrubar Jason e em seguida tentou dissolver-se em névoa para derrubá-lo, porém de alguma forma, Jason continuou montado. Ele desejou que o cavalo permanecesse em sua forma sólida, e o cavalo foi incapaz de recusar. Jason podia sentir o espírito lutando contra ele de novo, podia sentir seus pensamentos enfurecidos  totalmente caóticos esforçando-se para se libertar. Tomou toda a força de vontade de Jason impor seu desejo e conseguir controlar o cavalo. Jason pensou em Éolo, supervisionando milhões e milhões de espíritos como esse, muito piores. Não admirava que o Mestre dos Ventos tenha ficado meio louco depois de séculos de tanta pressão. Mas Jason tinha um único espirito para dominar e tinha que vencer.
— Você é meu agora — Jason disse.
O cavalo deu um coice, mas Jason se segurou rapidamente. Sua crina soltava faíscas enquanto ele rodeava a piscina vazia, seus cascos causando pequenas trovoadas onde quer que tocassem.
— Tempestade? Esse é o seu nome?
O cavalo espírito da tempestade balançou sua crina, feliz por ter sido reconhecido.
— Bom — Jason disse. — Agora, vamos lutar.
Ele voltou para batalha, balançando seu pedaço de madeira congelado, batendo em lobos e mergulhando direto através de outros venti. Tempestade era um espírito forte e sempre que passava por um de seus irmãos, descarregava muita eletricidade, e os outros espíritos vaporizavam numa inofensiva nuvem de fumaça.
No meio do caos, Jason captou vislumbres de seus amigos. Piper estava cercada por Nascidos da Terra, mas parecia estar se virando bem. Era tão impressionante observá-la lutando, quase brilhando com sua beleza, que os Nascidos da Terra olhavam para ela admirados, esquecendo que deviam matá-la. Eles diminuíram os golpes para ver, surpresos e emudecidos, enquanto ela sorria e desafiava-lhes. Eles sorriram de volta... até que ela os cortava em fatias com Katoptris, formando um monte derretido de lama.
Leo estava enfrentando a própria Quione. Lutar contra um deus deveria ser suicídio, porém Leo era o homem certo para isso. A deusa convocava punhais de gelo lançando-os contra Leo, rajadas de ar gelado e tornados de neve. Leo queimou tudo.Todo seu corpo brilhava com labaredas vermelhas, como se tivesse sido encharcado de gasolina. Ele avançou para cima da deusa, usando dois martelos de prata com pontas esféricas para esmagar qualquer monstro que atravessasse seu caminho.
Jason percebeu que Leo era quem os mantinha vivos. Sua aura ardente esquentava o pátio inteiro, contrariando a magia gélida de Quione. Sem ele, todos teriam congelado como as Caçadoras há muito tempo. Em qualquer lugar que Leo passasse, o gelo derretia. Até mesmo Thalia descongelara um pouco quando Leo passou perto.
Quione começou a recuar. Sua expressão era de raiva e meio chocada de pânico enquanto Leo se aproximava.
Jason estava ficando sem inimigos. Lobos derrubavam-se em montes atordoados. Alguns fugiam para fora das ruínas, ganindo por causa de suas feridas. Piper apunhalou o último Nascido da Terra, que caiu no chão em um monte de lama. Jason cavalgou com Tempestade em direção do último ventus, transformando-o em vapor. Então olhou ao redor e viu Leo caindo sobre a deusa da neve.
— Você está atrasado demais — Quione rugiu. — Ele acordou! E não pense que você ganhou alguma coisa aqui, semideus. O plano de Hera nunca funcionará. Você será engolido antes disso, não pode nos deter.
Leo fez com que seus martelos flamejassem e jogou-os na deusa, mas ela se transformou em neve, uma imagem dela mesma em pó branco. Os martelos bateram na deusa-de-neve, quebrando-a em um monte fumegante.
Piper respirava com dificuldade, mas sorriu para Jason.
— Belo cavalo — comentou.
Tempestade empinou sobre as patas traseiras, arcos de eletricidade atravessando seus cascos. Um completo exibido.
Em seguida, Jason ouviu um estalo atrás dele. O gelo estava derretendo na cela de Hera, e a deusa disse:
— Ah, não se preocupem comigo, sou apenas a rainha dos céus, morrendo aqui!
Jason desmontou e disse a Tempestade que esperasse parado. Os três semideuses pularam na piscina e correram para a torre.
Leo fez uma careta.
— Ahn, Tía Calida, você está encolhendo?
— Não, seu idiota! A terra está me reclamando. Depressa!
Por mais que Jason não gostasse de Hera, o que viu dentro da gaiola o alarmou. Hera não estava apenas afundando, mas a terra subia em volta dela também. Barro já tinha coberto suas canelas.
— O gigante está acordando! — Hera avisou. — Vocês só tem alguns segundos!
— Sobre isso... — disse Leo. — Preciso de sua ajuda, Piper. Fale com a gaiola.
— O quê? — ela disse.
— Fale com a prisão. Use tudo que você tem. Convença Gaia a dormir. Iluda-a, os tentáculos rochosos se enfraquecerão. Apenas atrase-a, tente fazê-la solta Hera enquanto eu...
— Certo! — Piper pigarreou e começou: — Ei, Gaia. Bela noite, hein? Nossa, como estou cansada. E você? Pronta para dormir?
Quanto mais ela falava, mais confiante parecia estar. Jason reparou que seus próprios olhos estavam ficando pesados e teve que se esforçar para não prestar atenção nela. Parecia estar fazendo efeito na gaiola. A lama subia mais devagar. Os tentáculos pareciam amolecer um pouco, tornando-se mais raízes de árvore do que pedra. Leo pegou uma serra circular de seu cinto de ferramentas. Como aquilo cabia ali, Jason não tinha ideia.
Em seguida, Leo olhou para o cabo e grunhiu de frustração.
— Eu não tenho nenhum lugar para ligar isso!
Tempestade pulou no poço e relinchou.
— Sério? — Jason perguntou.
Tempestade abaixou a cabeça e trotou até Leo. Leo olhou duvidoso, mas levantou o cabo e conectou no flanco do cavalo. Raios conectaram o animal à tomada, e a serra circular ganhou vida.
— Legal! — Leo sorriu. — Seu cavalo vem com tomada embutida!
O bom humor deles não durou muito tempo. Do outro lado da piscina, a espiral do gigante balançou, como uma árvore sendo cortada ao meio. Seu revestimento externo de galhos explodiu de cima a baixo, chovendo cacos de pedra e madeira com o gigante balançando livre e levantando-se da terra.
Jason pensou que nada poderia assustá-lo mais que Encélado. Ele estava errado.
Porfírion era muito mais alto e mais violento. Ele não irradiava calor nem sequer mostrou sinal de que exalava fogo, mas algo ainda mais terrível existia sobre ele  um tipo de força, mesmo magnetismo como se fosse tão grande e denso que tinha seu próprio campo gravitacional.
Assim como Encélado, o rei gigante era humanoide da cintura pra cima, vestido com uma armadura de bronze e da cintura pra baixo possuía escamosas pernas de dragão, mas sua pele era da cor de feijão-de-lima. Seu cabelo era verde como folhas de verão, cheio de dreadlocks e decorado com armas, punhais, machados e espadas de tamanho real, algumas delas entortadas e ensanguentadas, talvez troféus de semideuses derrotados éons atrás. Quando o gigante abriu os olhos, eles estavam brancos como mármore polido. Ele respirou fundo.
— Estou vivo! — berrou. — Graças a Gaia!
Jason fez um pequeno choramingo heroico e esperava que seus amigos não tivessem ouvido. Ele estava certo de que semideuses não teriam chances sozinhos com esse cara. Porfírion poderia levantar montanhas. Ele poderia esmagar Jason com apenas um dedo.
— Leo — Jason apressou.
— Hein?
A boca de Leo estava bem aberta. Até mesmo Piper parecia estupefata.
— Continuem trabalhando, vocês dois — disse Jason. — Libertem Hera!
— O que você vai fazer? — Piper perguntou. — Você não pode pensar seriamente em...
— Distrair um gigante? — Jason disse. — Não tenho escolha.


— Excelente! — O gigante rugiu quando Jason se aproximou. — Um aperitivo! É filho de quem? Hermes? Ares?
Jason pensou em não revelar de quem era filho, mas algo lhe disse para não fazer isso.
— Eu sou Jason Grace — disse — filho de Júpiter.
Os olhos do gigante o perfuraram. Atrás dele, o zumbido da serra circular de Leo e Piper falando com a gaiola em tons suaves, tentando tirar o medo de sua voz. Porfírion jogou a cabeça pra cima e riu.
— Excelente! — Ele olhou para o céu nublado. — Então, Zeus, você sacrificou seu filho por mim? Aprecio seu gesto, mas não irá salvá-lo.
O céu não fez nenhum estrondo. Sem ajuda do céu. Jason estava por conta própria.
Ele largou sua espada improvisada. Suas mãos estavam cobertas de lascas, mas isso não importava agora. Ele tinha que arranjar mais tempo para Piper e Leo, e não podia fazer isso sem uma arma adequada. Era hora de agir com muito mais confiança do que realmente sentia.
— Se você soubesse quem sou — Jason gritou de volta — você estaria preocupado comigo, não com meu pai. Espero que você tenha gostado dos seus dois segundos e meio de renascimento, gigante, porque estou prestes a te mandar de volta ao Tártaro!
Os olhos de Porfírion se estreitaram. Ele plantou um pé fora da piscina e se agachou para obter uma visão melhor de seu oponente.
— Então... vamos começar nos vangloriando, certo? Como nos velhos tempos! Muito bem, semideus. Eu sou Porfírion, rei dos gigantes, filho de Gaia. Nos tempo antigos, eu me levantei do Tártaro, o abismo do meu pai, para desafiar os deuses e iniciar a guerra, e roubei a rainha de Zeus. — Ele sorriu para a gaiola da deusa. — Olá, Hera.
— Meu marido destruiu você uma vez, monstro! — Hera falou. — Ele fará isso de novo!
— Mas não irá, querida! Zeus não era poderoso o bastante para me matar. Ele teve que confiar em um semideus medíocre para ajudá-lo e mesmo assim, quase ganhamos. Desta vez, vamos completar o que começamos. Gaia está acordando. Ela tem nos fornecido muitos servos. Nossos exércitos vão abalar a terra... e destruir suas raízes.
— Você não ousaria — Hera falou, mas ela estava enfraquecida. Jason podia ouvir a dificuldade crescendo em sua voz.
Piper continuava sussurrando para a gaiola e Leo continuava serrando, mas a terra ainda subia dentro da prisão de Hera, agora cobrindo até sua cintura.
— Ah, sim — disse o gigante. — Os Titãs tentaram atacar sua nova casa em Nova York. Ousado, mas ineficiente. Gaia é mais inteligente e paciente. E nós, seus melhores filhos, somos muito, muito mais poderosos que Cronos. Sabemos como matar vocês, Olimpianos, de uma vez por todas. Vocês devem ser arrancados completamente como árvores podres, suas velhas raízes arrancadas e queimadas.
O gigante franziu o cenho para Piper e Leo, como se acabasse de perceber que eles trabalhavam na gaiola. Jason adiantou-se e gritou para atrair a atenção de Porfírion.
— Você disse que um semideus te matou — ele gritou. — Como? Se somos tão insignificantes?
— Ah! Você acha mesmo que vou explicar a você? Fui criado para substituir Zeus, nasci para destruir o Lorde dos Céus. Devo tomar seu trono. Devo pegar a esposa dele... ou se ela não me aceitar, deixarei a terra consumir sua força de vida. O que você vê, filho, é apenas minha forma enfraquecida. Minha força crescerá a cada momento, até eu me tornar invencível. Mas já sou bem capaz de esmagar você!
Ele levantou até sua altura máxima e estendeu a mão, e uma lança de seis metros surgiu do chão. Ele a pegou e em seguida, pisou duro o chão com seus pés de dragão. As ruínas tremeram. Em volta do pátio, monstros começaram a se reerguer, espíritos da tempestade, lobos e Nascidos da Terra, todos  respondendo ao chamado do rei gigante.
— Ótimo — Leo murmurou. — Era do que precisávamos, mais inimigos.
— Rápido — Hera disse.
— Eu sei! — Leo vociferou.
— Vá dormir, gaiola — Piper incitou. — Ótimo, durma gaiola sonolenta. Sim, estou falando com um monte de tentáculos de barro. Isso não é totalmente estranho.
Porfírion remexeu sua lança no topo das ruínas, destruindo a chaminé e jogando madeira e pedras por todo o pátio.
— Então, filho de Zeus! Eu terminei minha apresentação. Agora é a sua vez. O que você dizia sobre a minha destruição?
Jason olhou para o amontoado de monstros, esperando impaciente a ordem de seu mestre para rasgá-los em pedaços. A serra de Leo continuava zumbindo e Piper continuava falando, mas parecia impossível. Quase toda a gaiola fora preenchida de terra.
— Sou filho de Júpiter! — Jason gritou. E apenas para ter um efeito, convocou os ventos, subindo alguns metros do chão. — Sou um filho de Roma, cônsul dos semideuses, pretor da Primeira Legião.
Jason não sabia exatamente o que dizia, mas ressaltou as palavras como se ele já as houvesse dito antes. Ele estendeu seu braço, mostrando a tatuagem de uma águia e as iniciais SPQR. Para sua surpresa, o gigante pareceu reconhecer o simbolo.
Por um momento, Porfírion realmente pareceu desconfortável.
— Eu matei o monstro marinho de Troia — Jason continuou. — Derrubei o trono negro de Cronos e destruí o Titã Crio com minhas próprias mãos. E agora vou destruir você, Porfírion, e alimentar seus lobos com seus restos.
— Nossa, cara — Leo murmurou. — Você tem comido carne vermelha ultimamente?
Jason lançou-se em direção ao gigante, decidido a rasgá-lo.



A ideia de lutar com as mãos vazias contra um imortal de nove metros era tão ridícula que até mesmo Porfírion pareceu surpreso. Meio voando, meio pulando, Jason pousou no joelho escamoso do gigante e escalou até o braço dele antes que Porfírion sequer percebesse o que aconteceu.
— Como você ousa? — o gigante urrou.
Jason alcançou o ombro dele e pegou uma espada dos dreads do gigante. O semideus gritou:
— Por Roma! — e foi em direção ao alvo mais próximo, a gigantesca orelha do gigante.
Um raio riscou o céu e explodiu na espada de Jason, derrubando-o. Ele rolou quando bateu no chão. Quando olhou para cima, o gigante estava cambaleando, seu cabelo em chamas, e o lado de seu rosto enegrecido pelo raio. A espada estava fragmentada na orelha do gigante. Icor dourado escorria pelo seu rosto. As outras armas estavam faiscando e em combustão em suas tranças.
Porfírion quase caiu. O círculo de monstros soltou um grunhido coletivo e avançou. Lobos e ogros fixaram os olhos em Jason.
— NÃO! — Porfírion berrou. Ele recuperou o equilíbrio e olhou o semideus. — Vou matá-lo eu mesmo!
O gigante pegou sua lança que começou a crescer.
— Você quer brincar com relâmpagos, garoto? Se esqueceu que sou a ruína de Zeus? Fui criado para destruir seu pai, o que significa que sei exatamente o que matará você.
Alguma coisa na voz de Porfírion disse a Jason que ele não estava blefando.
Jason e seus amigos tinham feito tudo muito bem. Os três tinham feito coisas incríveis. Sim, foram coisas heroicas mesmo. Mas quando o gigante levantou a lança, Jason sabia que não tinha nenhum jeito de esquivar desse ataque.
Este era o fim.
— Agora! — Leo gritou.
— Durmam! — disse Piper, com tanta força, que os lobos mais próximos começaram a cair no chão e dormir.
A gaiola de pedra e madeira desintegrou-se. Leo tinha serrado a base do tentáculo mais denso e aparentemente cortou a conexão da gaiola com Gaia. Os tentáculos viraram pó. A lama em volta de Hera se desintegrou. A deusa cresceu, aumentando seu poder.
— Sim! — a deusa comemorou.
Ela tirou seu manto preto revelando um vestido branco, com os braços enfeitados de joias de ouro. Seu rosto era lindo e terrível, uma coroa dourada brilhava em seus cabelos longos e negros.
— Agora, terei minha vingança!
O gigante Porfírion recuou. Ele não disse nada, mas direcionou um olhar de ódio a Jason. Sua mensagem era clara: Ainda nos veremos. Em seguida, ele bateu sua lança na terra de novo, e o gigante desapareceu no chão como se tivesse escorrido por um ralo.
Ao redor do pátio, monstros entraram em pânico e recuaram, mas não tinha escapatória para eles. Hera brilhou com mais intensidade e gritou:
— Cubram seus olhos, meus heróis!
Mas Jason estava muito atordoado e entendeu tarde demais.
Ele viu Hera revelar sua verdadeira forma, explodindo em um anel de força que vaporizou todos os monstros instantaneamente. Jason caiu, uma luz extremamente forte preencheu sua mente, e seu último pensamento foi que seu corpo estava queimando.

O Herói Perdido - Jason

Capítulo XLIX - Leo

APÓS A LUTA NO MONTE DIABLO, Jason não pensou que poderia se sentir mais assustado ou devastado.
Agora sua irmã estava congelada aos seus pés. Ele estava cercado por monstros. Havia quebrado a sua espada de ouro e a substituído com um pedaço de madeira. Tinha aproximadamente cinco minutos antes que o rei dos gigantes irrompesse e lhes destruísse. Jason já havia utilizado o seu maior trunfo, invocando o raio de Zeus na luta contra Encélado, e duvidava que tivesse a força ou a cooperação dos céus para fazer aquilo de novo. O que significava que os seus únicos recursos eram uma deusa reclamona prisioneira, uma espécie de namorada com uma adaga e Leo, que aparentemente achava que poderia derrotar os exércitos das trevas com balas de menta.
Acima de tudo, as piores memórias de Jason estavam retornando. Ele tinha certeza de que já havia feito muitas coisas perigosas em sua vida, mas nunca tinha estado tão perto da morte quanto estava agora. A inimiga era linda. Quione sorriu, seus olhos negros brilhando, enquanto uma adaga crescia em sua mão.
— O que você fez? — exigiu Jason.
— Ah, tantas coisas — ronronou a deusa da neve. — Sua irmã não está morta, se é isso que está perguntando. Ela e suas Caçadoras irão dar ótimos brinquedos para nossos lobos. Achei que poderíamos descongelá-las uma a uma e brincar de caçá-las. Deixar que elas sejam as presas dessa vez.
Os lobos rosnaram concordando.
— Sim, meus queridos — Quione manteve os seus olhos em Jason. — Sua irmã quase matou o rei deles, você sabe. Licáon está escondido numa caverna em algum lugar, sem dúvida lambendo as suas feridas, mas seus servos se juntaram a nós para vingar seu mestre. E logo Porfírion se levantará, e nós governaremos o mundo.
— Traidora! — gritou Hera. — Sua intrometida, deusa de quinta categoria! Você não é digna para servir um vinho, muito menos para governar o mundo.
Quione suspirou.
— Chata como sempre, Rainha Hera. Eu tenho desejado te calar por milênios.
Quione acenou e gelo cobriu a prisão, selando os espaços entre os tentáculos de terra.
— Assim está melhor. Agora, semideuses, quanto as suas mortes...
— Foi você quem enganou Hera para que ela viesse aqui — disse Jason. — Você deu a Zeus a ideia de fechar o Olimpo.
Os lobos rosnaram e os espíritos da tempestade relincharam prontos para atacar, mas Quione ergueu sua mão.
— Paciência, meus amores. Se ele quer conversar, o que importa? O sol está se pondo, e o tempo está do nosso lado. Naturalmente, Jason Grace. Como a neve, minha voz é tranquila, suave e muito fria. Para mim é fácil sussurrar para os outros deuses, especialmente quando só estou confirmando os seus medos mais profundos. Também sussurrei no ouvido de Éolo que ele deveria emitir uma ordem para matar semideuses. É um pequeno serviço para Gaia, mas estou certa de que será bem recompensado quando seus filhos, os gigantes, chegarem ao poder.
— Você poderia ter nos matado em Quebec — Jason lembrou. — Por que nos deixou viver?
Quione franziu seu nariz.
— Complicaria os negócios, matar vocês na casa do meu pai, especialmente quando ele insistia em conhecer todos os visitantes. Eu tentei, se você se lembra. Teria sido adorável se ele tivesse concordado em transformar vocês em gelo. Mas, uma vez que ele lhes deu garantia de passagem segura, eu não podia desobedecer-lhe abertamente. Meu pai é um velho tolo. Ele vive com medo de Zeus e Éolo, mas ele ainda é poderoso. Em breve, quando meus novos mestres tiverem despertado, vou destituir Bóreas e tomar o trono do Vento Norte, mas não agora. Além disso, meu pai tinha um ponto. Sua missão era suicida. Eu esperava que vocês fracassassem.
— E para nos ajudar com isso — disse Leo — você derrubou o nosso dragão do céu sobre Detroit. Os fios congelados na cabeça dele... aquilo foi sua culpa. Você vai pagar por isso.
— Você também foi quem manteve Encélado informado sobre nós — Piper acrescentou. — Temos sido assolados por tempestades de neve a viagem inteira.
— Sim, eu me sinto tão próxima de todos vocês agora! Uma vez que vocês conseguiram passar por Omaha, decidi pedir a Licáon para rastrear vocês, assim Jason poderia morrer aqui, na Casa do Lobo —  ela sorriu para ele — você vê, Jason, seu sangue derramado nessa terra sagrada vai manchá-la por gerações. Seus irmãos semideuses ficarão indignados, especialmente quando encontrarem os corpos desses dois do Acampamento Meio-Sangue. Eles acreditarão que os gregos tem conspirado com os gigantes. Será... delicioso.
Piper e Leo não pareciam entender o que ela estava dizendo. Mas Jason sabia. Suas memórias tinham retornado o suficiente para ele perceber quão perigosamente eficaz o plano de Quione poderia ser.
— Você vai colocar semideuses contra semideuses — ele revelou.
— É tão fácil! — disse Quione. — Como te falei, só estou encorajando o que você faria de qualquer jeito.
— Mas por quê? — Piper estendeu as mãos. — Quione, você irá destruir o mundo. Os gigantes irão destruir tudo. Você não quer isso. Pare os seus monstros.
Quione hesitou, então riu.
— Seus poderes de persuasão estão melhorando, garota. Mas eu sou uma deusa. Você não pode me encantar. Nós, deuses do vento, somos criaturas do caos! Eu vou derrubar Éolo e deixar as tempestades correrem livremente. Se destruirmos o mundo mortal, melhor ainda! Eles nunca me honraram, mesmo nos tempos gregos. Humanos e sua discussão sobre aquecimento global. Bah! Eu irei refrescá-los com rapidez o bastante. Quando retornarmos aos lugares antigos, irei cobrir a Acrópole de neve.
— Os lugares antigos — os olhos de Leo se arregalaram. — Foi isso o que Encélado quis dizer quando falou em destruir as raízes dos deuses. Ele se referia a Grécia.
— Você poderia se juntar a mim, filho de Hefesto — disse Quione. — Eu sei que você me acha bonita. Seria suficiente pro meu plano se esses outros dois morressem. Rejeite esse destino ridículo que as Parcas deram a você. Ao invés disso, viva e seja o meu herói. Suas habilidades seriam muito úteis.
Leo parecia estupefato. Ele olhou para trás, como se Quione estivesse falando com outra pessoa. Por um segundo, Jason ficou preocupado. Ele imaginou que não era todo dia que Leo tinha lindas deusas fazendo-lhe ofertas como essa.
Em seguida, Leo riu tanto que se curvou.
— Sim, me unir a você. Certo. Até que você se canse de mim e me transforme em um Picoleo? Senhora, ninguém destrói o meu dragão e fica impune. Eu não posso acreditar que achava você quente.
O rosto de Quione ficou vermelho.
— Quente? Você se atreve a me insultar? Eu sou fria, Leo Valdez. Muito, muito fria.
Ela disparou uma rajada de granizo nos semideuses, mas Leo ergueu a sua mão.
Uma parede de fogo rugiu ganhando vida na frente deles, e a neve se dissolveu em uma nuvem de vapor.
Leo sorriu.
— Viu, senhora, isso é o que acontece com a neve no Texas. A neve... derrete.
Quione sibilou.
— Já chega. Hera está fracassando. Porfírion está se levantando. Deixem que eles sejam a primeira refeição do nosso rei!
Jason levantou o seu galho congelado  uma estúpida arma para se morrer lutando  e os monstros atacaram.

O Herói Perdido - Leo

Capítulo XLVIII - Leo

NO COMEÇO, LEO PENSOU que eram pedras caindo no pára-brisa. Mas logo percebeu que era granizo. Gelo começou a aparecer nas bordas do vidro e ondas lamacentas de gelo borraram sua visão.
— Uma tempestade de gelo? — Piper gritou mais alto que as hélices e o vento. — É para ser tão frio assim em Sonoma?
Leo não tinha certeza, mas alguma coisa nessa tempestade parecia consciente, malévola  como se intencionalmente estivesse os castigando.
Jason acordou rapidamente. Ele inclinou para frente, agarrando os assentos para se equilibrar.
— Nós devemos estar chegando perto.
Leo estava muito ocupado lutando contra o controle para responder. De repente não estava mais tão fácil pilotar o helicóptero. Seus movimentos se tornaram lentos e bruscos. A máquina inteira estremeceu no vento de gelo. O helicóptero provavelmente não tinha sido feito para voar em tempo frio. Os controles se recusavam a responder. E eles começaram a perder altitude.
Abaixo deles, o chão era uma mistura escura de árvores e nevoeiro. O cume de uma colina apareceu na frente deles e Leo puxou o controle, raspando nas copas das árvores.
— Ali! — Jason gritou.
Um pequeno vale abriu-se diante deles, com uma forma escura de um edifício no meio. Leo dirigiu o helicóptero diretamente para ele. Em volta deles havia lampejos de luz que lembrou Leo da vez que se aproximaram da casa de Midas. Árvores estalaram e explodiram nas bordas da clareira. Sombras moveram-se através do nevoeiro. Combates pareciam estar acontecendo em todos os lugares.
Ele desceu o helicóptero para um campo de gelo a uns cinquenta metros da casa e desligou o motor. Estava prestes a relaxar quando ouviu um silvo e viu uma sombra escura indo rapidamente na direção deles fora do nevoeiro.
— Saiam! — Leo gritou.
Eles saltaram do helicóptero e mal saíram debaixo das hélices antes de um massivo BUM tremer a terra, derrubando Leo e jogando gelo em cima dele. Ele levantou tremendo e viu a maior bola de neve do mundo  um amontoado de neve, gelo e sujeira do tamanho de uma garagem  que cobriu completamente o Bell 412.
— Você está bem? — Jason correu para ele com Piper do seu lado.
Os dois pareciam bem, exceto pelo fato de estarem cobertos de neve e lama.
— Sim — Leo estremeceu. — Acho que devemos a aquela pilota um novo helicóptero.
Piper apontou para o sul.
— A luta está para lá. — Depois ela franziu a testa. — Não... está em todos os lugares.
Ela estava certa. O som de combate atravessava todo o vale. A neve e a neblina faziam com que ficasse difícil dizer, mas parecia haver um círculo de lutas em volta da Casa do Lobo. Atrás deles assomava a casa dos sonhos de Jack London  uma enorme ruína de pedras vermelhas e acinzentadas, com vigas de madeira rústica. Leo podia imaginar o lugar antes de incendiar  uma combinação de casa de madeira e castelo, como uma casa de um lenhador bilionário poderia construir. Mas na neblina e no granizo, o local parecia solitário e assombrado. Leo podia acreditar que as ruínas eram amaldiçoadas.
— Jason! — a voz de uma garota chamou.
Thalia apareceu na neblina, a sua jaqueta coberta de neve. O seu arco estava na mão, a aljava quase vazia. Ela correu para encontrá-los, mas só deu alguns passos antes de um ogro de seis braços  um dos Nascidos da Terra  aparecer da tempestade atrás dela, um porrete erguido em cada mão.
— Cuidado! — Leo gritou.
Eles se apressaram para ajudar, mas Thalia tinha tudo sobre controle. Ela deu um salto como se fosse uma ginasta, atirando uma flecha enquanto se posicionava de joelhos. O ogro conseguiu uma flecha de prata bem no meio do seus olhos e derreteu em uma pilha de pó.
Thalia levantou e recuperou a flecha, mas a ponta tinha caído.
— Essa era a minha última flecha — ela chutou a pilha de pó ressentida. — Ogro estúpido.
— Belo tiro, aliás — Leo elogiou.
Thalia o ignorou como sempre (o que sem dúvida queria dizer que ela pensava que ele era legal como sempre). Ela abraçou Jason e acenou para Piper.
— Bem na hora. Minhas Caçadoras estão cobrindo um perímetro em volta da mansão, mas vamos ser sobrepujados a qualquer minuto.
— Pelos Nascidos da Terra? — Jason perguntou.
— E pelos lobos... subordinados de Licáon — Thalia tirou um pedaço de gelo do seu nariz. — E também espíritos da tempestade.
— Mas nós o entregamos para Éolo! — Piper protestou.
— Que tentou matar a gente — Leo a lembrou. — Talvez ele esteja ajudando Gaia de novo.
— Eu não sei — Thalia disse. — Mas os monstros continuam se reformando quase tão rápido quanto conseguimos matá-los. Nós tomamos a Casa do Lobo sem problemas: surpreendemos os guardas e os mandamos direto para o Tártaro. Mas então, essa tempestade de neve maluca apareceu. Onda após onda de monstros começaram a atacar. Agora estamos cercados. Eu não sei quem ou o que está liderando o assalto, mas acho que planejaram isso. Era uma armadilha para matar qualquer um que tentasse salvar Hera.
— Onde ela está? — Jason perguntou.
— Lá dentro — Thalia disse. — Nós tentamos salvá-la, mas não temos ideia de como quebrar as grades. São só alguns minutos até o pôr do sol. Hera acha que nesse momento Porfírion vai renascer. Além disso, a maior parte dos monstros são mais fortes de noite. Se nós não salvarmos Hera logo...
Ela não precisava terminar.
Leo, Jason e Piper a seguiram para a mansão arruinada.


Logo que Jason atravessou a soleira da porta, ele desmaiou.
— Ei! — Leo segurou ele. — Sem essa, cara. Qual é o problema?
— Esse lugar... — Jason balançou a cabeça. — Desculpa... sempre bate forte em mim.
— Então você esteve aqui — Piper disse.
— Nós dois estivemos — Thalia disse. Sua expressão estava sombria, como se estivesse revivendo a morte de alguém. — Foi aqui que mamãe nos trouxe quando Jason era criança. Ela o deixou aqui e me disse que estava morto. Ele simplesmente desapareceu.
— Ela me deu para os lobos — Jason murmurou. — Por causa da insistência de Hera. Ela me deu para Lupa.
— Essa parte eu não sabia — Thalia franziu a testa. — Quem é Lupa?
Uma explosão balançou o edifício. Lá fora, uma nuvem azul em forma de cogumelo subiu ao céu, chovendo flocos de neve e gelo, como uma explosão nuclear feita de frio ao invés de calor.
— Talvez não seja o momento para perguntas — Leo sugeriu. — Mostre-nos a deusa.
Uma vez dentro, Jason parecia ter se recuperado. A casa era construída em um gigante U. E Jason os liderou por entre as alas chegando a um pátio com uma piscina vazia. No fundo dela, assim como Jason havia descrito a partir do seu sonho, duas espirais de pedra e raízes surgiam através da fundação.
Uma das espirais era muito maior  uma massa escura de aproximadamente seis metros de altura, que para Leo parecia um saco de dormir de pedra. Embaixo da massa de raízes fundidas ele podia ver o formato de uma cabeça, ombros largos, um peito e braços maciços, como se a criatura estivesse presa da cintura para baixo na terra. Não, não presa  se erguendo.
Do outro lado da piscina, a segunda espiral era menor e mais entrelaçada. Cada raiz era tão grossa como um poste de telefone, com tão pouco espaço entre eles que Leo duvidava que podia passar até mesmo um braço. Mesmo assim, ele podia ver dentro. E no meio da cela estava Tía Callida.
Ela parecia exatamente como Leo se lembrava: cabelo preto coberto por um xale, o vestido negro de uma viúva, a cara enrugada e os mesmos olhos assustadores. Ela não brilhava ou emitia nenhum tipo de poder. Parecia uma mulher mortal comum, a sua boa e velha babá psicopata.
Leo entrou na piscina e se aproximou da cela.
— Hola Tía. Está com algum problema?
Ela cruzou seus braços e suspirou exasperada.
— Não me trate como uma de suas máquinas, Leo Valdez. Me tire daqui!
Thalia se aproximou dele e olhou para a cela com desgosto  ou talvez ela estivesse olhando para a deusa.
— Tentamos tudo o que conseguimos pensar, Leo, mas talvez não tenha tentado de coração  Se fosse por mim, eu a deixaria aí.
— Ah, Thalia Grace — a deusa disse — quando eu sair daqui, você vai se arrepender de ter nascido.
— Já chega! — Thalia a cortou. — Você tem sido nada menos do que uma maldição para todas as crianças de Zeus por eras. Você mandou um monte de vacas com problemas intestinais atrás da minha amiga Annabeth...
— Ela me faltou com respeito!
— Você derrubou uma estátua na minha perna.
— Isso foi um acidente!
— você levou o meu irmão! — A voz de Thalia falhou com emoção. — Aqui... nesse lugar. Você arruinou as nossas vidas. Nós deveríamos deixá-la para Gaia!
— Ei — Jason interviu. — Thalia... Mana... eu sei. Mas não é a hora. Você deveria ajudar as suas Caçadoras.
Thalia endireitou a sua jaqueta.
— Tudo bem. Por você, Jason. Mas se me perguntar, ela não vale a pena.
Leo virou para Hera com respeito invejoso.
— Vacas com problemas intestinais?
— Se concentre na cela, Leo — ela grunhiu. — E Jason... você é mais sábio que a sua irmã. Eu escolhi bem meu campeão.
— Eu não sou seu campeão, senhora — Jason disse. — Só estou te ajudando porque você roubou as minhas memorias e você é melhor que a outra alternativa. Falando de feitiço, o que está acontecendo com aquilo ali?
Ele acenou para a outra espiral que parecia uma bolsa humana de granito tamanho king-size. Leo estava imaginando se aquilo cresceu um pouco desde que chegaram ali.
— Aquilo, Jason — Hera respondeu — é o rei dos gigantes renascendo.
— É gigante — Piper notou.
— De fato — Hera disse. — Porfírion, o mais forte de todos. Gaia precisava um grande poder para reerguê-lo novamente... o meu poder. Por semanas fiquei cada vez mais fraca enquanto minha essência era usada para dá-lo uma nova forma.
— Então você é uma espécie de incubadora? — Leo adivinhou. — Ou fertilizante.
A deusa olhou para ele, mas Leo não se importou. Essa velha senhora vinha fazendo sua vida miserável desde que era um bebê. Ele tinha direito de pegar no pé dela.
— Brinque o quanto quiser — Hera disse em um tom macabro. — Mas ao pôr do sol, será tarde demais. O gigante irá acordar. Ele me oferecerá uma escolha: casar com ele ou ser consumida pela terra. E eu não posso me casar com ele. Todos nós seremos destruídos. E enquanto morremos, Gaia irá despertar.
Leo franziu para a espiral gigante.
— Não podemos explodi-la ou algo assim?
— Sem mim, vocês não teriam o poder necessário — Hera respondeu. — Seria como tentar destruir uma montanha.
— Fizemos isso hoje — Jason disse.
— Apenas se apresse e me tire daqui! — Hera demandou.
Jason coçou a sua cabeça.
— Leo, você consegue fazer isso?
— Eu não sei — Leo tentou não entrar em pânico. — Aliás, se ela é uma deusa, por que ela mesma não escapa?
Hera andou furiosa em volta da cela, xingando em grego antigo.
— Use seu cérebro, Leo Valdez. Eu escolhi você porque era inteligente. Uma vez capturado, o poder de um deus é inútil. O seu próprio pai me capturou em uma cadeira de ouro. Foi humilhante! Eu tive que implorar, implorar pela minha liberdade e me desculpar por jogá-lo do Olimpo.
— Parece justo — Leo disse.
Hera lhe deu um olhar feio piedoso.
— Eu o observo desde que era criança, filho de Hefesto, porque eu sabia que poderia me ajudar neste momento. Se alguém pode achar um jeito de destruir essa abominação, esse alguém é você.
— Mas isso não é uma máquina. É como se Gaia levantasse a sua mão do chão e... — Leo se sentiu tonto. Uma linha da profecia voltou para ele: A forja e a pomba devem abrir a cela. — Espera aí. Eu tenho uma ideia. Piper, vou precisar da sua ajuda. E vamos precisar de tempo.
O ar se tornou quebradiço com o frio. A temperatura caiu tão rápido que os lábios de Leo secaram e sua respiração formou névoa. Gelo cobriu as paredes da Casa do Lobo. Os espíritos da tempestade entraram... mas ao invés de homens com asas, esses eram como cavalos, com corpos de nuvens de tempestades e crinas que estalavam relâmpagos. Alguns tinham flechas de pratas espetadas nos flancos. Atrás deles vieram os lobos com olhos vermelhos e os Nascidos da Terra de seis braços.
Piper pegou a sua adaga. Jason pegou um galho coberto de gelo do fundo da piscina. Leo procurou no seu cinto de ferramentas, mas estava tão abalado, que tudo que conseguiu foi balinhas de menta. Ele atirou de volta, esperando que ninguém percebe-se e tirou um martelo instantaneamente.
Um dos lobos andou para frente. Estava carregando uma estátua de tamanho real pela perna. Na beirada da  piscina, o lobo abriu a boca e deixou cair a estátua para eles verem  uma escultura de gelo de uma garota, uma arqueira com o cabelo curto e espetado com um olhar surpreso.
— Thalia! — Jason correu para frente, mas Piper e Leo o puxaram de volta.
O chão ao redor de Thalia já estava coberto de gelo. Leo temia que se Jason a toca-se, congelaria também.
— Quem fez isso? — Jason gritou. Seu corpo estalou com eletricidade. — Eu o matarei eu mesmo!
De algum lugar atrás dos monstros, Leo ouviu uma risada de uma garota, clara e fria. Ela andou para fora da névoa com seu vestido branco de neve, uma tiara de prata no topo de seus cabelos negros. Ela olhou-o com aqueles profundos olhos castanhos que Leo tinha achado tão lindos em Quebec.
— Bon soir, mes amis — disse Quione, a deusa da neve. Ela deu a Leo um sorriso frio. — Ah, filho de Hefesto, você diz que precisa de tempo? Temo que tempo seja uma ferramenta que você não tem.